O filósofo e político francês Jean Jaurès, fundador do Jornal L´Humanité, foi ao
lado do marxista Jules Guesde, um dos fundadores do Partido Socialista Francês
no começo do século XX. Jaurès era um democrata radical, um humanista que
defendia o socialismo, mas não segundo o ponto de vista materialista do marxismo e
sua teoria sobre a luta de classes, mas sim segundo um ponto de vista moral,
visando a emancipação do homem.
O socialismo de Jean Jaurès não coincide
exatamente com o marxismo; recusava a ditadura do proletariado, a realização do
coletivismo por um estado burocrático e o internacionalismo sistemático. O
socialismo era, para ele, o livre e pleno desenvolvimento da pessoa humana, o
verdadeiro sentido da declaração dos direitos do homem. Acreditava ser possível
à criação de uma sociedade sem classes por meio de um esforço pacifico, sem sair
do quadro eleitoral. Quando explodiu o caso Dreyfus, pediu a revisão do
processo. Seu livro "As Provas" fez com que perdesse as eleições daquele ano e
sua atitude chocou-se com a oposição de Jules Guesde e outros marxistas de uma
ala contrária à defesa de um oficial burguês.
Jean Jaurès era pacifista,
foi feroz opositor da Primeira Guerra Mundial, sendo uma das vozes que na II
Internacional Socialista se posicionaram contra essa criminosa guerra
imperialista. Ele afirmava que
"Le capitalisme porte en lui la guerre
comme la nuée porte l'orage"(O capitalismo traz em si a guerra como a nuvem traz
a tempestade). Tentou organizar uma greve geral na França e na
Alemanha, para deter o avanço da guerra. Por esse motivo Jean Jaurès foi
assassinado em um café de Paris, no dia 31 de julho de 1914, por Raoul Villain,
um jovem nacionalista francês que desejava a guerra com a Alemanha, que teve
inicio em 3 de agosto de 1914.
O lider espírita Leon Denis, discipulo de
Allan Kardec, era socialista. Ele defendia o socialismo humanista de Jaurès,
tendo inclusive escrito o clássico
"Socialismo e Espiritismo", onde
busca demonstrar que a Doutrina dos espíritos e o socialismo se completam.
Deixava claro entretanto, sua oposição ao materialismo
marxista.
"Segundo os meus artigos precedentes, eu me coloquei entre
os socialistas. Mas tive o cuidado de dizer que não aceito o socialismo sem a
doutrina espiritualista que o tempera, o docifica, tirando-lhe todo o caráter de
áspera violência. Reprovo o socialismo materialista que só semeia o ódio entre
os homens e, por conseguinte, permanece infecundo e destrutivo, como se pode ver
na Rússia. Sou evolucionista e não revolucionário." (Leon Denis; em "Socialismo
e Espiritismo)
Sou defensor incondicional do socialismo democrático
e do humanismo, motivo pelo qual tenho na obra de Jean Jaurès, um dos meus
referenciais ideológicos e filosóficos. Leiam abaixo um texto escrito por ele em
1911, onde defende o serviço público.
OS TRABALHADORES E O
SERVIÇO PÚBLICO
Após um acidente de trem da companhia
ferroviária Ouest-Etat, então recém-nacionalizada, diretor do jornal
'L'Humanité', escreveu este artigo, em 19 de fevereiro de 1911
1 , que parecia antecipar o que viria quase um século
depois
Jean Jaurès
E eis que, brandindo os
acidentes da Ouest-Etat, toda a imprensa capitalista se precipita contra os
serviços públicos. Todos os especuladores, todos os aproveitadores, todos
aqueles que, após terem roubado magníficas riquezas à nação, queriam especular,
monopolizar e roubar mais, todos aqueles que estão de olho, à espera de novas
concessões, no minério de Ouenza, no carvão e no minério de Meurthe-et-Moselle,
no ouro de múltiplas jazidas, todos aqueles que querem, sem que sejam
perturbados em sua especulação, captar a energia hidráulica, geradora de luz e
de movimento. Todos eles, organizados numa tropa, queriam persuadir a França de
que o Estado democrático nunca será capaz de administrar uma indústria e de que
devem ser deixadas por conta das empresas privilegiadas as riquezas que elas
próprias já usurparam e que lhes devem ser entregues todas as novas riquezas.
Será o povo operário e camponês enrolado por essas manobras? Será que
ele se deixará enganar e esfolar uma vez mais? Será que, justamente quando se
acelera a política de nacionalização e municipalização no mundo inteiro, a
França proclamará sua incompetência, sua inépcia, e consagrará as pretensões de
um feudalismo que a sangra e subjuga? Quem compactuasse, direta ou
indiretamente, com essa manobra dos capitalistas, estaria cometendo um autêntico
crime.
Oligarquia ávida
Não se permita que a oligarquia
explore as catástrofes, pelas quais é, em grande parte,
responsável
Ah! Que se denunciem os erros da Ouest-Etat; que se
procure a causa; que se lance uma luz implacável sobre todas as
responsabilidades; que se reabra o processo da antiga empresa que criou
deliberadamente uma situação intolerável e que se revelem os erros da burocracia
que sem dúvida construiu, depressa demais, um novo regime sobre uma base podre;
que se questionem aqueles que, para agradar à empresa ou por uma indesculpável
negligência, não fizeram proceder ao exame rigoroso da estrada de ferro e do
material, ao inventário preciso que teria permitido, de acordo com as cláusulas
financeiras da compra, diminuir as pretensões abusivas dos acionistas e teria
constituído, para o novo regime, uma advertência de prudência; que seja posto um
fim à discórdia, à desconfiança recíproca entre o pessoal da antiga empresa e o
da rede adquirida; que se organize – por meio de uma participação mais efetiva
do pessoal empregado, do Parlamento, do próprio público, representado por seus
delegados eleitos para esse fim, e pelos membros das grandes associações
comerciais, industriais e sindicais – um controle mais eficaz; que não se tenha
medo de agir rapidamente, seja qual for o custo do esforço financeiro
necessário, para se obter o bom funcionamento da rede. Sim, mas que não se
permita a uma oligarquia ávida em explorar as recentes catástrofes, pelas quais
é, em grande parte, responsável, que aumente ainda mais seu domínio feudal às
custas de toda a população. E, também, que nunca os socialistas dêem à
necessária crítica do Estado burguês – que, aliás, depende de nós para ser cada
dia menos burguês – uma forma tal que faça o monopólio do capital se sentir
regozijado e fortalecido.
Não é indiferente provar que complexos
industriais podem funcionar sem o controle dos magnatas do
capital
Os ferroviários acertaram quando, há poucos dias, em seu
congresso sindical e denunciando a intriga reacionária, não só reivindicaram que
a rede Ouest-Etat fosse mantida, mas também que a totalidade das redes
ferroviárias fosse nacionalizada. Para toda a classe operária, há um interesse
vital em que serviços públicos democraticamente administrados ocupem o lugar dos
monopólios capitalistas e que funcionem com um padrão de excelência, com a
participação e a dedicação de todos.
Avanços no setor
público
Primeiramente, os trabalhadores podem conquistar, dessa
maneira, mais garantias. Numa democracia, o Estado, por mais burguês que ainda
seja, não pode desconhecer os direitos e os interesses dos assalariados de modo
tão pleno e cínico quanto os monopólios privados. A antiga Ouest-Etat
antecipara-se a todas as demais empresas ao implantar reformas que favoreciam os
trabalhadores; e agora, com a rede adquirida, a reintegração dos ferroviários
está praticamente concluída, enquanto as empresas, ridicularizando o poder, o
Parlamento e a consciência pública, respondem a qualquer pedido de reintegração
com o mais despótico e injurioso indeferimento. Aliás, neste mesmo momento, o
Estado prepara para os servidores públicos um regime salarial melhor do que o
das empresas privadas. Mas isso não é tudo; e o Parlamento tem interesse, para a
transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista, em que os
grandes serviços públicos, administrados segundo regras democráticas e com uma
ampla participação da classe operária na sua direção e controle, funcionem de
maneira precisa e vigorosa. Não é indiferente que se possa provar que enormes
complexos industriais podem funcionar sem o controle dos magnatas do capital.
Por mais longe que estejam do que virá a ser a organização coletivista, os
serviços estão mais perto desse objetivo, num país de democracia e organização
operária, do que os monopólios privados. Eles são uma primeira forma de
organização coletiva. Pressupõem – em cada um dos que dele participam e que
devem coordenar seus esforços sem a disciplina brutal de antigamente – aquele
senso de responsabilidade e preocupação com a obra comum sem os quais o
mecanismo coletivista falharia.
Os proletários devem defender os
serviços públicos contra as campanhas sistemáticas da imprensa
burguesa
Os serviços públicos democratizados podem e devem ter
um efeito triplo: diminuir a força do capitalismo, dar ao proletariado mais
garantias e uma força mais direta de reivindicação e desenvolver nele, para
compensar as garantias conquistadas, o zelo pelo bem público, que é uma forma
básica da moralidade socialista e a própria condição necessária para o despertar
de uma nova ordem.
O papel dos trabalhadores
Que
os proletários defendam portanto, com todas as suas forças, os serviços públicos
contra as campanhas sistemáticas da imprensa burguesa e contra as decepções que
produz, junto à própria classe operária, uma primeira experiência, desastrada e
arrogantemente burocrática, do regime da nacionalização.
Que eles não
entreguem o Estado às oligarquias, mas que se esforcem, ao estender o domínio do
Estado, por ampliar sua ação dentro do Estado e sobre o Estado, por meio do
desenvolvimento de sua organização sindical e de sua força política.
Eis
aí um elemento necessário da política de ação de ampla e profunda "realização"
que o Partido Socialista deverá propor à democracia francesa à medida que o
radicalismo decomposto manifestar sua impotência essencial.
(Trad.: Jô
Amado)
1 - Trecho do livro Un siècle d'Humanité – 1904-2004, org. Roland
Leroy, ed. Le Cherche Midi, Paris, 2004.