A social-democracia clássica fundamentava-se no marxismo e defendia a luta pelo
socialismo. Um dos seus principais teóricos foi Karl Kautsky, nascido em Praga
no dia 18 de outubro de 1854. Essa social-democracia clássica nasceu
revolucionária, mas com o avanço da "socialização da política", conquistada em
virtude das lutas heróicas do movimento operário e popular, passou a defender um
caminho pacífico para o socialismo, afirmando que a democracia é necessária na
futura sociedade socialista, e que graças as vitórias obtidas pelo movimento
operário e popular, o próprio socialismo poderia ser construido de forma
democrática, atráves de eleições e da luta parlamentar.
Karl
KautskyO teórico político marxista Karl Kautsky foi uma das
mais importantes figuras da história do marxismo, tendo editado o quarto volume
de
O Capital, de Karl Marx, as
Teorias de Mais-Valia , que continha a avaliação
crítica de Marx às teorias econômicas dos seus predecessores.
Kautsky
estudou história e filosofía na Universidade de Viena, e se tornou membro do
Partido Social Democrata em 1875. De 1885 a 1890, ele viveu em Londres, onde se
tornou amigo de Friedrich Engels. Em 1891, foi co-autor do Programa de Erfurt do
Partido Social Democrata da Alemanha (SPD), junto com August Bebel e Eduard
Bernstein.
Kautsky não foi nenhum "renegado", como foi acusado
injustamente por Lenin. Apesar de ter apoiado a participação alemã na Primeira
Guerra Mundial, Karl Kautsky não sustentou esta "posição patriótica" até o fim
da guerra. Em Junho de 1915, cerca de dez meses após a guerra ter começado,
quando tornou-se evidente que seria uma guerra brutal e desumana, ele emitiu um
recurso com Eduard Bernstein e Hugo Haase contra os líderes pró-guerra do SPD, e
denunciou o governo de possuir objetivos imperialistas. Kautsky e demais
opositores do apoio a guerra, foram expulsos do SPD em 1916. No ano seguinte,
Kautsky e outros socialistas que se opunham a guerra, fundaram o Partido Social
Democrata Independente. Kautsky retornou para o SPD apenas em 1922.
Quando Eduard Bernstein defendeu a revisão do marxismo, afirmando que a
esquerda deveria se preocupar com as reformas que beneficiavam a vida dos
trabalhadores, e não com a luta pelo socialismo, Kautsky se posicionou contra
essa revisão. Apesar de defender o caminho reformista, Kautsky deixava claro que
este só teria sentido em conexão com a luta pelo socialismo. Ele disse que:
"Quando Bernstein diz que devemos ter primeiramente a democracia
para conduzir passo a passo o proletariado à vitória, eu digo que para nós a
questão é inversa. A vitória da democracia está condicionada pela vitória do
proletariado."Kautsky também rejeitou a tentativa de Bernstein,
de transformar o SPD em um "partido do povo". Embora o proletariado pudesse
aliar- se, momentaneamente, às frações de classes pequeno- burguesas e
camponesas para obter certos objetivos políticos e reformas administrativas, não
deveria, contudo, cooperar com eles em uma organização duradoura. A preservação
do caráter de classe, portanto, possibilitaria a organização do proletariado em
um partido político autônomo, consciente da luta de classes que deve travar e de
seus objetivos: supressão da propriedade individual dos meios de produção
capitalista. Ao contrário, a fusão do proletariado em um partido único com todas
as classes populares implicaria na renúncia à revolução e na obrigação de se
contentar com algumas reformas sociais.
Deste modo, segundo Kautsky,
"não se deve considerar que o socialismo aperfeiçoará, mas sim vencerá o
liberalismo; não se pode contentar em ser um partido que se limite às reformas
democrático- socialistas; deve- se ser o partido da revolução social", pois "a
revolução social (...) é o objeto fatal ao qual tende toda organização política
autônoma do proletariado"(Karl Kautsky; La doctrina socialista). Para
tanto, Kautsky argumenta que todo partido deveria se dispor à conquista do poder
político para "moldar o Estado" e fazer com que as suas forças atuem sobre as
formas sociais em adequação às metas partidárias.
Para Kautsky, o
socialismo não é o objetivo final da luta de classes do proletariado contra a
burguesia, mas sim a abolição de toda espécie de exploração e de opressão.
Entretanto o socialismo é o único meio de se conquistar esse
objetivo.
"Em verdade não é o socialismo nosso objetivo final,
mas a abolição de “toda espécie de exploração e de opressão, quer seja dirigida
contra uma classe, um partido, um sexo ou uma raça”. Por essa luta [de classes],
nós nos propomos a estabelecer um modo de produção socialista, dado que parece
ser, hoje, o único meio que corresponde às condições técnicas e econômicas dadas
para conseguir nosso fim. Se se chegasse a demonstrar que estamos errados em não
acreditar que a liberdade do proletariado e da humanidade em geral possa
realizar-se, unicamente, ou mais comodamente, na base da propriedade privada dos
meios de produção – como Proudhon continuou a crer – então deveríamos rejeitar o
socialismo, sem renunciar, entretanto, a nosso fim, e deveríamos fazê-lo,
precisamente, no interesse de nosso objetivo final." (Karl Kautsky; A ditadura
do proletariado)Até a primeira decada do século XX, Kautsky
defendia a via revolucionária como caminho para o socialismo. Entretanto ao
observar o avanço da democracia na Alemanha, percebeu que os social-democratas
poderiam chegar ao poder pelo voto, confirmando o que Marx havia sugerido ao
falar sobre países capitalistas democráticos, que na sua época se resumia aos
EUA, Grã Bretanha, e Holanda.
Kautsky observou essa possibilidade ao
constatar que o Partido Social Democrata crescia a cada eleição, tanto que em
1890, havia conquistado 1,4 milhão de votos, enquanto que em 1912, conquistou
4,2 milhões de votos, passando de 35 deputados eleitos em 1890, para 110 em
1912.
Kautsky então afirmou que
“não se poderia opor democracia e
socialismo e dizer que um é o meio e o outro é o fim”, uma vez que
“todos os dois são meios para um mesmo fim.”A revolução
socialista para Kautsky e para os demais teóricos da social-democracia clássica,
deveria ser uma revolução processual, fundamentada na radicalidade democrática,
através das eleições e da luta parlamentar. Por isso tornaram-se
reformistas.
Muitos podem achar que a social-democracia clássica é igual
ao eurocomunismo. Mas estão enganados quem acha isso, pois em primeiro lugar, os
eurocomunistas não negam a Revolução Russa de Outubro de 1917, apesar de
reconhecerem os erros promovidos pelos bolcheviques. Já os social-democratas
sempre se opuseram a essa revolução, negando qualquer vinculo entre eles e essa
que foi a primeira revolução socialista da história. Isso porque sempre se
opuseram ao socialismo degenerado dos bolcheviques, pois sabiam que sem
democracia não pode existir socialismo.
Os teóricos da social-democracia
clássica foram os primeiros a fazer previsões que a história revelou serem
válidas, sobre o fracasso do modelo bolchevique.
"Como o
socialismo não consiste simplesmente na destruição do capitalismo e em sua
substituição por uma organização estatal-burocrática da produção, a ditadura
bolchevique estava destinada a fracassar e a terminar 'necessariamente no
domínio de um Cromwell ou de um Napoleão'". (A previsão feita por Kautsky
realiza-se plenamente na figura de Stálin).
(Israel Getzler: "Outubro de
1917: o debate marxista sobre a revolução na Rússia". In: História do Marxismo.
Eric J. Hobsbawm (org.) Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, pp. 58-59)
Em segundo lugar, ao contrário dos eurocomunistas, que não separam o
socialismo da democracia, afirmando que assim como não pode haver socialismo sem
democracia, também não pode existir democracia sem socialismo, os
social-democratas afirmam que o socialismo seria impensável sem democracia,
contudo "uma democracia pura" seria possível sem o socialismo.
A
democracia parlamentar como único caminho para o socialismoA
visão da democracia parlamentar como único instrumento para se chegar ao
socialismo e propiciar o processo de amadurecimento do proletariado, é defendida
por Kautsky, que sustenta a idéia de que para o socialismo se desenvolver seria
preciso que
"a maturidade do proletariado se acrescente à maturidade das
condições e ao nível necessário de desenvolvimento industrial". Para tanto
a democracia seria indispensável, posto que não somente permitiria, mais do que
qualquer outro meio, acelerar o processo de amadurecimento do proletariado, como
ainda ajudaria a reconhecer o momento em que essa maturidade seria alcançada.
Assim, se o proletariado fosse
"bastante forte e inteligente para tomar em
mãos a organização social", ele poderia então transferir a democracia do
plano político para o econômico.
Entretanto, o que Kautsky entende por
democracia? Qual o seu conceito de democracia? Em um comentário sobre a
experiência da Comuna de Paris, Kautsky enfatizou que:
"A
primeira tarefa do novo regime revolucionário foi a consulta pelo sufrágio
universal. A eleição, realizada com a maior liberdade, deu em todos os distritos
de Paris e com raras exceções, grande maioria a favor da
Comuna."Em outra passagem, se referindo a Revolução proletária,
Kautsky evidenciou que:
"Um regime que conta com o apoio das
massas só empregará a força para defender a democracia, e não para aniquilá-la.
Ele cometeria verdadeiro suicídio se quisesse destruir seu fundamento mais
seguro: o sufrágio universal, fonte profunda de poderosa autoridade moral."
E Kautsky afirmava o seguinte sobre a ditadura do
proletariado:
"Literalmente, a palavra ditadura significa
supressão da democracia. Mas acontece que, tomada à letra, esta palavra
significa igualmente poder pessoal de um só indivíduo que não está preso por
nenhuma lei. Poder pessoal que difere do despotismo no fato de não ser entendido
como uma instituição de Estado permanente, mas como uma medida extrema de
transição.
A expressão "ditadura do proletariado", por conseqüência não
de um só indivíduo, mas de uma única classe, prova que Marx não pensava aqui em
ditadura no sentido literal da palavra.
Fala aqui não da forma de
governo, mas do estado de coisas, que deve necessariamente produzir-se por toda
a parte onde o proletariado conquistou o poder político."
Kautsky defendia claramente o conceito marxista, ou seja, que a
ditadura do proletariado consistia na maneira de aplicar a democracia, não na
sua supressão. E que seria algo temporário, uma medida extrema de transição.
Para Kautsky, a vitória da revolução socialista, ou seja, a vitória do
proletariado, é a vitória da democracia. E após constatar o desenvolvimento da
democracia alemã, concluiu que a revolução socialista ocorreria por meios
pacíficos, através da democracia parlamentar.
Kautsky conhecia bem a
conjuntura da Europa Ocidental e da Alemanha, não deixando-se levar pelo
extremismo esquerdista. Sabia muito bem que não haveria uma revolução baseada na
ruptura, em insurreição popular, seja na Alemanha ou na Europa Ocidental. Ao
contrário da Rússia, onde ainda existia uma realidade semi-feudal, na Alemanha e
na Europa Ocidental ocorreria uma revolução processual, baseada no reformismo e
no respeito ao processo democrático.
Além desse reconhecimento da
democracia como valor universal, Kautsky foi o pensador marxista que fez a
correta análise do imperialismo, formulando a teoria do ultra-imperialismo. Foi
também um dos mais ferozes criticos do bolchevismo, condenando a ditadura
totalitaria estabelecida por eles na Rússia. Em 1934, escreveu "Bolchevismo:
Democracia e Ditadura", onde condenou a URSS e sua ditadura
totalitaria.
Kautsky faleceu em 17 de outubro de 1938, em Amsterdã,
Holanda, onde encontrava-se exilado após os nazistas terem tomado o poder na
Alemanha. Ele foi no marxismo, o pai do socialismo democrático, defendendo uma
via pacífica para o socialismo, uma revolução processual fundamentada na
radicalidade democrática.
E foi graças a social-democracia que a Alemanha
tornou-se um exemplo de democracia, com a aprovação da Constituição de Weimar em
1919. A jornada de trabalho foi fixada em 8 horas diárias, as mulheres
conquistaram o direito de votar e se candidatar a cargos eletivos, os
trabalhadores conquistaram o pleno direito de greve, e mesmo o Partido Comunista
da Alemanha que havia tentado tomar o poder pela via insurrecional, na
fracassada revolução de janeiro de 1919(que ocasionou o assassinato de Rosa
Luxemburgo), conquistou a legalidade e disputava livremente as eleições.
Os social-democratas prosseguiam portanto no objetivo de construir o
socialismo com liberdade, baseando-se em uma revolução processual fundamentada
na radicalidade democrática, apesar da crise econômica provocada pelas pesadas
indenizações cobradas pelos vencedores da Primeira Guerra Mundial. Entretanto
após a guinada esquerdista promovida por Stalin em 1928, os comunistas alemães
passaram a considerar os social-democratas como os principais inimigos do
proletariado, chamando-os de "social-fascistas", chegando inclusive a colaborar
com os nazistas. Isso dividiu o movimento operário alemão, possibilitando o
crescimento das forças conservadoras, em especial do Partido
Nazista.
"Em 1931, seguindo a orientação de Stalin, os comunistas
alemães se aliaram aos nazistas(antes da ascensão destes ao poder) contra os
sociais-democratas, então caracterizados como inimigos principais dos
trabalhadores alemães. Isso porque em 1928, Stalin caracterizou a
social-democracia como "social-fascismo", igual (ou pior, conforme a ocasião) ao
partido nazista; posição reafirmada após a ascensão de Hitler ao poder em
janeiro de 1933, quando, em abril do mesmo ano, o dirigente stalinista alemão
Fritz Heckert explica aos militantes do Partido Comunista da Alemanha, que "o
desabamento do regime fascista na Alemanha depende, antes de tudo, da liquidação
da influência da social-democracia reacionária", isso num momento em que Hitler
mandava prender os sociais-democratas em massa. Nunca na história uma
organização operária havia aceito a destruição de outra organização operária(no
caso, do maior partido dos trabalhadores alemães) pela polícia de um estado
capitalista repressor, sem se considerar atingida.
Essa política que
priorizava a luta contra a social-democracia, acima de tudo, só muda em 1934,
com a política de frente popular, que inclui os sociais-democratas numa vasta
frente anti-fascista, dirigida também aos partidos burgueses tidos como
democráticos."
(Vitor Letízia; em "A era do retrocesso: as esquerdas e
as guerras no século XX")Após a Segunda Guerra Mundial, com o
triunfo do stalinismo no movimento comunista internacional, e com a "Guerra
Fria" entre Ocidente capitalista X Oriente socialista(incluindo a criação da
República Democrática Alemã pelos soviéticos em 1949), os social-democratas
foram levados a abandonar o marxismo e a utopia socialista, realizando em
novembro de 1959, o Congresso de Bad-Godesberg. Foi apenas a partir disso que
morreu a perspectiva de uma uma revolução processual que levasse a construção do
socialismo democrático na Europa Ocidental e na Alemanha por parte da
social-democracia.
Portanto a social-democracia clássica, representada
principalmente por Karl Kautsky, nada tem em comum com a atual
social-democracia, herdeira do Congresso de Bad-Godesberg. A social-democracia
clássica é claramente socialista, e portanto anti-capitalista.
Como defensor do socialismo democrático, também busco inspiração na
social-democracia clássica. Essa social-democracia clássica, representada
principalmente por Karl Kautsky, é claramente socialista, e na minha opinião é
parte importante no processo de refundação do socialismo e da verdadeira
alternativa capaz de superar o capitalismo.