"Uma esquerda reformada não pode sair da tradição socialista, que, no atual período, significa concretamente opor a defesa dos direitos ao sucateamento dos direitos. Significa defender a globalização dos direitos sociais em conjunto com a globalização do capital. Defender a organização do consumo sustentável, combinada com a regulação social do mercado. Significa defender a solidariedade aos ex-países coloniais e a sua gente imigrada, opondo-se ao racismo e à xenofobia. Significa defender a estabilidade da democracia parlamentar e das instituições republicanas, combinadas com a participação direta e virtual da cidadania. Uma esquerda renovada defenderá políticas de desenvolvimento regional que partam da valorização da bases produtivas locais e da valorização das suas respectivas culturas. A esquerda renovada deve, enfim, repor no discurso político e nas ações de governo, a agenda do combate às desigualdades, tão cara à tradição socialista, social-democrata ou meramente republicano-democrática, que o neoliberalismo conseguiu arquivar."

(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O que é a Verdade?

O que é a Verdade?

Antônio Mesquita Galvão é doutor em Teologia Moral
 
 
O verbete verdade, que aparece no grego como alêtheia, expressa, desde os filósofos da Antiguidade a harmonia possível de ser estabelecida entre a subjetividade cognitiva do intelecto humano e os fatos da realidade objetiva. No século VI a.C. o legislador ateniense Sólon uniu os juízos verdade e liberdade ao afirmar que quem não conhece a verdade jamais poderá se considerar integralmente livre.

No julgamento de Jesus (no evangelho de João) ao ouvir que ele viera para "dar testemunho da verdade”, Pilatos perguntou: "O que é a verdade?”. Fez a pergunta e virou as costas, desinteressado em escutar a resposta. Isto evidencia a existência, em muitos casos de uma privatização da verdade, onde cada um tem a sua e não interessa a dos outros. É preciso dizer a verdade apenas a quem está disposto a ouvi-la (Sêneca). Jesus se revela à humanidade como Caminho (odôs), Vida (dzoê) e Verdade (alêtheia).

Pois agora, a partir da idéia da presidenta Dilma foi instaurada no Brasil a "Comissão da Verdade”, como uma ponderável chance de se conhecer a história, vencendo o silêncio e o medo. É salutar que todos saibam ou recordem que o Brasil viveu a fase mais negra de sua história com a ditadura militar (1964-1985) que se instalou no país depois do golpe de 1964. Foram tempos de exceção, onde as Forças Armadas incentivadas pelo golpismo das elites brasileiras reduziu o Brasil a um país – a exemplo da maioria das republiquetas latinoamericanas – a algo divorciado dos processos democráticos e do respeito ao direito das pessoas. Embora os militares falassem em "democracia”, nosso país ficou 21 anos sem eleger o presidente, governadores e prefeitos de cidades importantes. Só aconteciam eleições para prefeito em municípios sem importância sociopolítica.

Quem dissentisse da ditadura era – conforme o grau de seu "crime” – perseguido, demitido, preso, torturado e até morto. Um conhecido foi preso, sem sofrer violência, por algumas horas, e ameaçado de ser demitido do órgão público ponde trabalhava, por haver, numa brincadeira, chamado Castelo Branco, ditador de 64 a 67, de "sem pescoço”. Os militares e suas polícias invadiam casas ou ambientes de trabalho e arrancavam suspeitos sob violência, que apanhavam até contar o que não fizeram.... Tem vítimas cujos corpos não apareceram até hoje, sepultados ou jogados no mar. Assim como no Islã há quem negue o holocausto judeu, no Brasil tem gente que nega cinicamente a existência de torturas. Hoje ainda há muitos carrascos impunes, albergados por uma injusta "lei de anistia”, posando de democratas, até trabalhando no governo ou tentando negar as evidências da história. Na Argentina os torturadores estão, depois de um processo jurídico, todos na cadeia.

O fato é que o golpe militar de 64 foi uma violação à democracia, uma vez que João Goulart, o vice-presidente no exercício da presidência havia sido constitucionalmente eleito. Quando estudantes, sindicalistas e pessoas do povo se revoltaram contra esse ato discricionário, foram tachados de "subversivos” e inimigos da democracia, presos e torturados, quando, na verdade foram os militares, que com um golpe de Estado instauraram a exceção e o terror. Com singular desfaçatez os militares criaram uma hilária divisa: "A revolução de 64 é irreversível e consolidará a democracia no Brasil”. Que democracia, general?

A instauração dessa comissão tem, a meu ver, vários objetivos; primeiro apontar nominalmente os algozes, depois, tentar localizar os corpos das vítimas e, por fim, criar uma memória para que todos saibam o que ocorreu e tais fatos não mais se repita. Mesmo assim, sem que se busque vingança, não seria nada demais que a propalada "lei da anistias” fosse revista, uma vez que os "subversivos” foram todos, ou a maioria, sumariamente punidos, enquanto nenhum torturador sentou no banco dos réus.

Pois a "comissão da verdade” quer luz sobre tantos fatos, como o "suicídio” de Vlado Herzog, num quartel em São Paulo, o assassinato de um ex-sargento do exército, em Porto Alegre, que foi encontrado no rio Guaíba, com as mãos amarradas, no desaparecimento do ex-deputado Rubem Paiva, de Stuart Jones (filho de Zuzu Angel), das vítimas da chacina do Araguaia e tantos outros anônimos, cujas famílias choram sem poder sepultar seus corpos.

Está na hora de, como medida de impostergável justiça, se esclarecer quem é quem. No dizer de
Dilma "A palavra verdade não abriga ressentimento, ódio nem tampouco perdão”. Se conhecermos a verdade ela libertará a todos nós!

Teologia da Libertação



"A Teologia da Libertação nunca teve Marx como pai nem como padrinho. Ela bebeu primeiramente de sua própria fonte, que é a tradição judaico-cristã, que sempre deu centralidade aos pobres, ao tema da libertação do cativeiro egípcio e babilônico e à prática histórica de Jesus, que foi pobre e disse "felizes de vocês pobres e ai de vós ricos". E que não morreu tranqüilamente na cama como um piedoso rabino cercado de discípulos, mas na cruz, fruto de um juízo político-religioso que o condenou com o castigo dado a revoltosos sociais. Mas ela encontrou em Marx as boas razões para entender por que o pobre não é pobre, e sim um explorado e injustiçado. Ele é um empobrecido, feito pobre por fatores de ordem econômica, social e cultural, que hoje ganham corpo especialmente no capitalismo. Isso deu lucidez à Teologia da Libertação, mas também atraiu as acusações das classes sociais conservadoras, que sempre usaram a Igreja para legitimar seu projeto, que implicava a exclusão do povo." (Leonardo Boff; teólogo, filósofo e escritor)


A Teologia da Libertação e as transformações do mundo

Waldemar Rossi*

Na segunda metade da década de 60 do século passado começa a aparecer uma elaboração teológica embasada na dura vida do povo latino-americano. Fruto de dezenas de anos de vivência, de engajamento social e político e de testemunho cristão no meio do povo, a Ação Católica deu uma enorme contribuição à reflexão teológica a partir da vida, do cotidiano desse mesmo povo.

As motivações surgidas nas constantes reflexões dos vários movimentos de Ação Católica, e as luzes emanadas do Concílio Vaticano II, animaram os vários teólogos - comprometidos com a caminhada do povo simples e lutador - a elaborar uma teologia que iluminasse os cristãos, de forma ordenada e profunda, e os animasse a assumirem os desafios do mundo do trabalho, no campo e nas cidades, do engajamento político e social. No centro dessa elaboração teológica, além dos valores da LIBERTAÇÃO - inspirados na longa experiência do Povo de Deus, do tempo do Antigo Testamento, e nas experiências dos cristãos, renovados pela Boa Nova de Jesus Cristo – estavam, também, os valores e contra-valores dos Conflitos de Classe, presentes no Sistema de Exploração do Trabalho Assalariado, comandado pelos interesses da Produção Industrial. Em suma, nessa Teologia da Libertação estava e está presente um certo conceito da Luta de Classes elaborado por Marx, assim como estão presentes os anseios e as lutas pela libertação, contidos em todos os livros da bíblia, portanto, presente nas experiências do povo Hebreu e também na pregação e na prática de Jesus Cristo. (Mt. 5, 1-12; 9, 14-17; 23 (todo); Mc. 11, 15-19; 12,1-10;12, 38-40; Lc. 1,46-55; 2,33-35; 4, 17-21 e 24, 17-21)).

Os encontros de Medellin e Puebla, iluminados pelas luzes da Teologia da Libertação, impulsionaram as Comunidades de Base, uma nova maneira de ser Igreja, que assimilaram o sentido da libertação evangélica, enraizada nas lutas constantes para vencer a "moderna" opressão imposta pelos poderosos de nossos tempos. Foram anos frutuosos em que, das CBs, nasceram dezenas e dezenas de grupos que assumiram prá valer as lutas por moradia, transporte, saneamento básico, iluminação pública, educação, creche, saúde pública. Os ensinamentos contidos nessa Teologia colaboraram para que várias centenas de trabalhadores, homens e mulheres, operários e lavradores assumissem, com muita garra, a luta pelo desatrelamento sindical das amarras do Ministério do Trabalho, pelo direito da livre organização sindical e a luta pela liberdade de organização partidária.

A Teologia da Libertação foi fundamental para a firme postura da Igreja (tanto católica quanto das igrejas do CONIC), de enfrentamento com a ditadura militar, denunciando seus crimes, exigindo seu fim e a volta da democracia. A opção preferencial pelos pobres, assumida pela Igreja, está alicerçada nos profundos conceitos de justiça nela contidos.

O próprio Jesus nos advertia quanto às perseguições que sofreríamos por assumir a causa da sua Boa Nova. Assim foi com esse extraordinário movimento. A perseguição veio de fora e de dentro da própria Igreja, de setores que controlam o Vaticano, inconformados com os avanços dos cristãos rumo às idéias do socialismo. Muito se fez para confundir a opinião pública mundial, colocando no mesmo barco os ideais e a consagrada e universal luta de classes com as várias propostas de luta armada. Por mais que se procurasse mostrar que as experiências não são iguais, esses mesmos setores não abriram mão de tentar impor pesadas e injustas censuras à Teologia da Libertação. Muito se dizia à época que setores do Vaticano eram muito simpáticos ao modelo norte-americano, daí a razão desse infeliz combate. Tivemos até mesmo uma certa dose de inquisição imposta aos teólogos dessa corrente teológica.

Os tempos passaram, houve um pequeno retrocesso, momentos de dúvidas, hesitações, porém, as raízes profundas " como uma árvore plantada junto ao rio" resistiram, vencendo a tempestade. A caminhada nunca parou e, adaptada aos novos tempos, continua firme, rumo aos horizontes libertários.

A CNBB, é o sinal dessa presença obstinada, teimosa e perseverante na luta pela justiça social. Iniciativas como as Campanhas da Fraternidade, as Semanas Sociais Brasileiras, os documentos sobre as eleições, pela erradicação da miséria e da fome, os documentos e os plebiscitos sobre a Dívida Externa e sobre a ALCA são o resultado dessa permanente luta pela libertação do nosso povo e de todos os " povos oprimidos pelo capital opressor".

Em nosso entendimento, quanto mais avança a exploração do capital, mais se afirma a importância e a necessidade desse grande movimento teológico. Nunca, na História da Humanidade, a escravização e a exclusão econômica e social foram concomitantemente tão cruéis quanto em nossos tempos. A teologia da Libertação torna-se o grande instrumento de conscientização e de mobilização do povo marginalizado capaz de fazer frente à ideologia do capital, pois, " UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL". Podemos construir um mundo diferente, alicerçado na justiça, no direito e na fraternidade. O momento histórico nos convida a fazê-lo.

*Waldemar Rossi é sindicalista da Oposição Metalúrgica de São Paulo, aposentado; Membro da coordenação da Pastoral Operária de São Paulo

Os dois lados da Comissão da Verdade

Os dois lados da Comissão da Verdade

Frei Betto: Escritor e assessor de movimentos sociais
 
 
A Comissão da Verdade, nomeada pela presidente Dilma, corre o risco de se transformar em Comissão da Vaidade, caso seus integrantes façam dela alavanca de vaidades pessoais.

No dia seguinte às nomeações, ainda antes da posse, opiniões díspares dos membros da comissão quanto a seu objetivo precípuo surgiram na mídia.

O ministro Gilson Dipp, do Superior Tribunal de Justiça, se enquadra nos critérios definidos pela lei que criou a comissão? Nos termos de seu artigo 2º, §1 inciso II, "Não poderão participar da Comissão Nacional da Verdade aqueles que (...) não tenham condições de atuar com imparcialidade no exercício das competências da Comissão”.

Ao atuar como perito do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos, Dipp se posicionou contra familiares dos guerrilheiros do Araguaia, cujos corpos encontram-se desaparecidos. Agirá agora com imparcialidade?

O papel dos sete nomeados é investigar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988. O foco principal é, em nome do Estado, abraçarem a postura épica e ética de Antígona e dar sepultura digna aos mortos e desaparecidos sob a ditadura militar (1964-1985).

A comissão atuará sob a obscura luz da injusta Lei da Anistia, promulgada em 1979 e referendada pelo STF em 2010. Esta lei nivela torturadores e torturados, assassinos e assassinados. Ora, como anistiar quem jamais sofreu julgamento, sentença e punição?

Não houve "dois lados”. Houve o golpe de Estado perpetrado por militares e a derrubada de um governo constitucional e democraticamente eleito. A ditadura implantada cassou e caçou partidos e políticos, e criou um aparelho repressivo ("o monstro”,segundo o general Golbery) que instalou centros de torturas mantido com recursos públicos e privados.

O aparelho repressivo, em nome da "segurança nacional”,prendeu, seviciou, assassinou, exilou, baniu e fez desaparecer os que ousaram combater a ditadura, e também inúmeras pessoas que jamais se envolveram com a resistência organizada, como o ex-deputado Rubens Paiva, o jornalista Vladimir Herzog e o padre Antônio Henrique Pereira Neto.

Cabe à comissão elucidar a morte das vítimas da ditadura, o que ocorreu aos desaparecidos e quem são os responsáveis por tais atrocidades. Militares cumprem ordens superiores. É preciso apurar quem determinou a prática de torturas, a eliminação sumária de militantes políticos e o ocultamento de seus corpos.

A comissão deverá, enfim, abrir os arquivos das Forças Armadas, ouvir algozes e seus superiores hierárquicos, vítimas e parentes dos desaparecidos, e esclarecer episódios emblemáticos jamais devidamente investigados, como o atentado ao Riocentro, em 1981, preparado para ceifar a vida de milhares de pessoas.

Defender o conceito acaciano de "crimes conexos” e convocar como suspeitos aqueles a quem o Brasil deve, hoje, o resgate da democracia e do Estado de Direito, equivaleria a imputar à Resistência Francesa crimes contra a ocupação nazista de Paris ou convocar os judeus como réus no Tribunal de Nuremberg.

Os integrantes da Comissão da Verdade sabem muito bem que legalidade e justiça não são sinônimos. E tenham presente a afirmação de Cervantes: "A verdade alivia mais do que machuca. E estará sempre acima de qualquer falsidade, como o óleo sobre a água”.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Reflexões sobre as repercussões da vitória do PS na França

Reflexões sobre as repercussões da vitória do PS na França

Dia 6 de maio os franceses escolheram o novo presidente da República que governara até 2017, e que assume em um contexto de crise europeia.


O PS venceu com 52% dos votos, contra os 48% que obteve o candidato da direita, do UMP. Esse último esteve durante 10 anos no poder, cinco como Chefe da Casa Civil e cinco anos como presidente da República. E apesar das pesquisas que mostravam uma rejeição massiva à pessoa de Nicolas Sarkozy, este não obteve resultados tão fracos como se predizia. Sem contar que 6% da população exprimiram-se através de votos brancos ou nulos.

A volta do PS ao poder não suscita mais a efervescência quando da época de Mitterrand. Efervescência esta que alcançou o nosso Brasil em finalzinho de ditadura, em 1981, e que tanto nos deu esperanças. Muita água passou embaixo da ponte, estamos em um terceiro mandato petista, muitos avanços sociais foram postos em prática, bem ao contrario da França que muito regrediu neste campo, após tantos anos da direita no poder.

Então, desta vez, a vitória do PS não esta mais carregada de tantas aspirações, mas reflete a necessidade de uma mudança por via racional, sem exigir milagres do eleito, pois Hollande esta herdando uma realidade caótica.

Isto fica visível ao constatar que o PS não obteve uma vitória confortável e a maneira que poderá governar depende de como os eleitores se exprimirão nas eleições legislativas dos dias 10 e 17 de junho.

Mesmo que a população francesa estivesse descontente com a maneira de governar de Sarkozy – centralizando poderes e decisões e concedendo privilégios descaradamente - os franceses hesitaram em eleger um candidato de esquerda. Ao considerar o espaço que as ideias da extrema-direita, o Front National, ganharam durante esta campanha presidencial e que foram amplamente difundidas pelo próprio Nicolas Sarkozy e seu círculo mais próximo.

O 2° turno das eleições foi marcado por um endurecimento do discurso do presidente candidato a reeleição, onde este, de maneira quase obscena decidiu seduzir o eleitorado do FN. A extrema direita obteve 18% dos votos que passaram a ser decisivos para a obtenção da vitória.

Desta maneira, a questão da política migratória passou a pesar na balança, ocupando um espaço maior que o necessário no debate. Ressuscitou-se a questão das fronteiras e mesmo surgiu o argumento de rever os acordos do espaço Schengen, que preveem a livre circulação entre membros da Comunidade Europeia.

Pesquisas de opinião apontam que 37% da população francesa está de acordo, mesmo que algumas vezes parcialmente, com as ideias do FN, ideias que são incontestavelmente xenófobas e racistas. A crise foi um terreno fértil à expansão das ideias deste partido que encontrou eco dentro do governo Sarkozy, obtendo declarações como as do Ministro da Defesa, que entre os dois turnos da campanha disse que a líder do FN, Marine Le Pen, passou a ser uma parceira fiável e necessária à direita.

A facilidade em evitar a discussão das políticas neoliberais como reais responsáveis da crise, destacou o estrangeiro como o principal vilão, que foi acusado como o culpado de grande parte das dificuldades da sociedade. Este tipo de retórica fez com que a proposta do PS de instituir o direito de voto aos estrangeiros às eleições municipais fosse vilipendiada.

A estratégia de dividir a sociedade atingiu o seu ápice quando o trabalhador foi estigmatizado, a ponto do tradicional desfile do 1° de maio ter sido colocado como uma manifestação desprovida de caráter histórico social.

Onde se reduzia, segundo o presidente em exercício, a seguir as bandeiras vermelhas em detrimento a nacional e, sobretudo respondendo as manipulações dos sindicatos que não representam o “verdadeiro” trabalhador.

É incontestável que este discurso simplista criou um abismo na sociedade. Sociedade conhecida por incessantes lutas, greves que obrigaram o Estado a outorgar tantos avanços sociais. E este abismo é evidente na análise geográfica do resultado eleitoral. O PS ganhou nos grandes centros urbanos, com exceção de Nice, e na região rural ganhou à direita. E de maneira mais surpreendente, nas regiões onde não existem estrangeiros instalados, a adesão às ideias do FN foi grande, com uma votação expressiva. Isso demonstra o quanto existe de infundado na escolha deste eleitorado e que exprime o rechaço do outro, do diferente, do estrangeiro.

Neste contexto de fragilidade política, o líder político do partido do centro, o Modem, na figura de François Bayrou, declarou que as ideias difundidas durante a campanha do segundo turno, são incompatíveis com uma República democrática e que, como o Sarkozy encampou as posições do FN, lhe restava votar, a título pessoal, para François Hollande.

No primeiro discurso de Hollande, proferido após a vitória, ele reafirmou que a austeridade não deve ser uma fatalidade; em que as suas críticas à crise europeia são semelhantes às proferidas pela Dilma Roussef. Além disso, tudo indica que Hollande é sensível à política praticada no Brasil, tendo em vista que participou ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre e teve a oportunidade de encontrar com Lula.

Dentro das primeiras ações previstas pelo candidato vitorioso está a viagem a Alemanha, para iniciar discussões sobre o “pacto de estabilidade financeira” da Comunidade Europeia que tem asfixiado vários membros da zona euro.

A Europa em crise espera muito da vitória do PS na França. Europa que tem como motor econômico a França e a Alemanha, onde a segunda é inflexível ao que se refere às medidas de austeridade. E bem que a crise seja financeira, ela despertou ideologias xenófobas racistas, não somente na França, mas recentemente na Grécia, onde apareceu com muita força nas eleições.

Então, a questão econômica esta intimamente ligada à maneira que será organizada a política de imigração. A crise criou um terreno fértil para que a extrema direita avançasse, com o estrangeiro apontado como o responsável de todas as mazelas que as políticas neoliberais conduziram à beira do caos a França e a Europa.

Por isto tudo a comunidade brasileira instalada na França acompanha com muito interesse o que será posto em prática pelo governo socialista. Existem entre 80 e 90 mil brasileiros na França, grande parte indocumentada formando família, com filhos - muitos nascidos em solo francês. Muitos desses brasileiros atuam em trabalhos penosos, mal pagos e têm dificuldades para receber por não disporem de documentos que possibilitem a abertura de uma conta bancária.

Verdade que a realidade brasileira fez com que os brasileiros diminuíssem o fluxo migratório; o que não impede aqueles que já se encontravam na Europa, devido à crise, tenham decidido viver na França, uma vez que essa foi menos afetada pelo contexto econômico, tendo em vista a forte presença do Estado.

Robert Badinter, ministro da Justiça de Mitterrand e responsável pela lei que aboliu a pena de morte, quando consultado qual seria a medida de impacto semelhante a ser aplicada por Hollande, do mesmo peso que a que ele instaurou, respondeu sem hesitar que será o de dar o direito de voto aos estrangeiros nas eleições municipais.

Talvez, visto do Brasil, o voto dos estrangeiros possa parecer infundado, onde o argumento de destinar tal direito deveria ser somente aos que decidem obter a nacionalidade francesa. No entanto, é importante informar que cada vez mais se tornou complexo o processo de aquisição da nacionalidade. Nos últimos cinco anos o governo intensificou as dificuldades e instaurou medidas financeiras coercitivas. Entre outras tantas exigências, cada candidato a aquisição da nacionalidade, abaixo de um certo nível de estudo deve submeter-se a um exame de proficiência do idioma, devendo pagar 110 euros pelo mesmo, sem contar os 55 euros para simples estudo do pedido de naturalização. E tais exigências existem mesmo para os que vivem há muitos anos sobre o solo francês, trabalhando, pagando impostos e mesmo tendo filhos nascidos no território.

Hollande foi questionado pela Rede Educação Sem fronteiras, que auxilia os imigrantes sobre as condições de regularização e tratamento que recebem, e a resposta dada leva a pensar que a discussão está aberta e que existirá transparência na política que será instaurada. Provavelmente, será deixada de lado a meta por volume de expulsões a obter por ano.

E mesmo se existe prudência e limites no discurso de Hollande se nota que existe a vontade de romper com a xenofobia ambiente, buscando, sobretudo, respeitar os direitos humanos.
Muitos dos brasileiros que são pegos em situação irregular têm o passaporte confiscado pelas autoridades francesas, documento este que nem pertence ao cidadão brasileiro, mas ao governo brasileiro. Tal ato é demonstrativo de práticas desrespeitosas entre países amigos. E se a política de imigração deve ser determinada pelo governo francês, onde nenhum brasileiro põe em questão os critérios que serão estabelecidos, isto não impede que se espere o respeito aos direitos humanos, sem espaço para o aleatório.

Ainda sobre o tema da imigração, outro item que demanda um olhar bem atento são os centros de retenção que podem abrigar por até 45 dias, estrangeiros em situação irregular antes de serem expulsos. Estes centros receberam inúmeras vezes menores, situação que foi condenada pelo Conselho Europeu de Direitos Humanos e o Conselho de Direitos das Crianças. Informações apontam para a ocorrência de inúmeros abortos dentro destes centros.

Enfim, o PS elegeu-se com o slogan “A mudança é agora” e os brasileiros instalados na França esperam que os textos de lei respectivos à imigração herdados da era Sarkozy sejam revistos e que agora aja mudança. Mudança necessária para que os brasileiros que aqui se encontram se integrem, construam, vislumbrem um futuro melhor e que os laços de amizade entre a França e o Brasil se fortifiquem.


Carla Orlandina Sanfelici é integrante do núcleo do PT em Paris, militante da Rede Educação Sem fronteiras e de um dos Coletivos anti-FN


sexta-feira, 4 de maio de 2012

Venezuela proíbe terceirizações, amplia licença maternidade e reduz jornada de trabalho a 40 horas


Venezuela proíbe terceirizações, amplia licença maternidade e reduz jornada de trabalho a 40 horas

Mar vermelho comemora nas ruas de Caracas a Lei Orgânica do Trabalho sancionada por Chávez


Escrito por: Leonardo Severo

Um mar vermelho inundou as ruas de Caracas no 1º de Maio para comemorar a nova Lei Orgânica do Trabalho (LOT) da Venezuela, sancionada pelo presidente Hugo Chávez, que avança na garantia de benefícios e adota novas medidas de proteção à família e ao emprego.

Unindo trabalhadores urbanos e rurais, donas de casa, jovens, mulheres grávidas e mães com bebês nos braços, a marcha saiu do parque general Francisco de Miranda e foi crescendo à medida que passava por diferentes pontos da capital como a praça Altamira, a avenida Libertador e a praça O´leary.

Ao assinar o documento, Chávez destacou que a lei, com 554 artigos, é um instrumento que permitirá construir uma "nova cultura do trabalho e de responsabilidade". "Enquanto eu viver, considerem-me um trabalhador a mais. Combato pelos trabalhadores", frisou.

A nova lei põe fim às terceirizações, acabando com as "empresas intermediárias", estabelecendo prazo de três anos para que as empresas absorvam os trabalhadores terceirizados.

A jornada de trabalho foi reduzida para 40 horas semanas, garantindo o direito a dois dias de descanso por semana. Para resguardar a estabilidade no emprego foi estabelecida a multa rescisória em dobro aos empregadores que demitirem sem justa causa.

A legislação fixa a licença pré-natal em seis semanas e a pós-natal em 20 semanas, além de garantir a licença paternidade de 14 dias. As mães que adotarem uma criança terão licença de 26 semanas, 16 semanas a mais do que a lei anterior.

A LOT também estende a dois anos a garantia de emprego para os pais e mães. Às mulheres com filhos que tenham alguma incapacidade terão estabilidade no emprego.


Socialismo do Século XXI



A Revolução Bolivariana na Venezuela tem sido um exemplo para a esquerda mundial, de que é possível construir o socialismo com liberdade e democracia. Não é por acaso que o Presidente Hugo Chavez tem sido tão perseguido pelos setores conservadores da sociedade venezuelana e pelo imperialismo yankee.

Eu espero que o exemplo venezuelano acabe levando Cuba a promover reformas políticas, no sentido de democratizar o seu modelo de socialismo, rompendo com a herança autoritária do finado "socialismo real".

Não é possível existir um verdadeiro socialismo sem democracia, assim como não pode existir uma democracia plena sem socialismo. A filosofia marxista e a tradição do movimento operário socialista nunca se posicionou em favor de regimes burocraticos de partido unico, muito menos de ditaduras totalitarias. Esses graves desvios que descaracterizaram o socialismo foram resultado dos erros do bolchevismo, motivo pelo qual Rosa Luxemburgo, mesmo apoiando a Revolução Russa de Outubro de 1917, ter criticado Lenin, alertando para as consequências da ausência de uma democracia socialista:

"A liberdade apenas para os partidários do governo, só para os membros de um partido - por numerosos que sejam - não é a liberdade. A liberdade é sempre, pelo menos, a liberdade do que pensa de outra forma (...). Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida acaba em todas as instituições públicas, vegeta e a burocracia se torna o único elemento ativo. [...] Se estabelece assim uma ditadura, mas não a ditadura do proletariado: a ditadura de um punhado de chefes políticos, isto é uma ditadura no sentido burguês [...]". (Rosa Luxemburgo; in "A Revolução Russa") 



A Revolução Bolivariana significa o resgate do socialismo democrático, e vem inspirando os governos democrático-populares de Evo Moralez na Bolivia, e de Rafael Correa no Equador. Espero que também acabe influenciando o Partido Comunista de Cuba em sua necessária política de reformas. Leia o texto abaixo e reflita:



Venezuela fez
(Cristovam Buarque)

Caracas não tem muitos pontos turísticos, mas se um visitante escrever o nome de um deles e mostrar a qualquer pessoa na rua, ela saberá ler. A Venezuela é um território livre do analfabetismo. Este é, hoje, seu maior monumento à história.

Há três anos, a Venezuela tinha 1,5 milhão de adultos analfabetos. Quando o governo iniciou a operação para eliminar o analfabetismo, poucos acreditaram naquela meta. O Presidente Chávez lançou a Operação Robinson I, sob a coordenação do ministro Aristóbulo Istúriz. As Forças Armadas lançaram o programa-piloto em duas cidades, para mostrar que a meta era possível.

Confirmado o sucesso, a operação foi levada ao resto do país. Milhares de agentes visitaram cada casa. O slogan "Eu, sim, posso!" mobilizou todos os venezuelanos. Aos poucos, cada cidade levantou uma bandeira declarando-se "Território Livre de Analfabetismo". Em 28 de outubro, o país declarou-se Território Livre do Analfabetismo, com aval da Unesco.

Tive a honra de ser convidado para a celebração. Em uma tocante solenidade na Assembléia Nacional, ouvi falar emocionada uma recém-alfabetizada. O presidente do Congresso, na presença de uma representante da Unesco, assinou um Ato Congressional, declarando a Venezuela Território Livre de Analfabetismo. À tarde, essa Declaração foi entregue ao Presidente Chávez, diante de milhares de alfabetizadores e recém-alfabetizados. O povo na rua comemorou orgulhoso.

Depois deste 28 de outubro, a Venezuela nunca mais será a mesma. É como se um país, que há cem anos abre poços de petróleo, abrisse o poço de uma energia muito mais poderosa - a capacidade intelectual de seu povo.

Considera-se livre de analfabetismo o país com mais de 95% de seus adultos letrados. Na Venezuela, eles são 99%. Passaram com sucesso pelo programa 1,4 milhão de jovens e adultos, de todas as idades, portadores de deficiências, presos, doentes. Cada alfabetizador recebe, no dia da diplomação, uma coleção de livros simples de leitura, clássicos da literatura, e é inscrito na Fase II do programa, até a conclusão da 4a série. O próprio Presidente cita livros e recomenda leituras em seus discursos.

Testemunhar um país declarar-se livre de analfabetismo é como assistir sua Declaração de Independência. Ver a enorme bandeira - Território Livre do Analfabetismo - era como ver a verdadeira bandeira da Venezuela só agora hasteada. No Brasil, isso seria ainda mais emocionante, porque nossa bandeira só é reconhecida pelos alfabetizados. Além de cores, tem palavras.

Por isso, para um brasileiro, a alegria de assistir o êxito venezuelano é entristecer-se um pouco. Porque se o Programa Brasil Alfabetizado tivesse sido mantido nos moldes de 2003, com uma Secretaria específica para o assunto (nossa operação Robinson) e recursos assegurados, o Brasil estaria pronto para erradicar o analfabetismo antes do final de 2006. É inexplicável que o Presidente Lula tenha preferido extinguir a Secretaria para a Erradicação do Analfabetismo, reduzir o Brasil Alfabetizado a um programa sem metas nem ambições, e chegar a 10 de outubro de 2005 tendo aplicado 10,5% dos recursos previstos para este ano.

Em setembro de 2003, o Presidente Lula recebeu no Teatro Cláudio Santoro, em Brasília, um prêmio da Unesco pelo Brasil Alfabetizado. Naquele momento, imaginei-o em 2007 recebendo o Nobel da Paz por ter erradicado o analfabetismo no Brasil. Durante a solenidade no Teatro Teresa Carreño, em Caracas, percebi que essa chance está mais próxima do presidente Chávez.


Autor: Cristovam Buarque; ex-Governador do Distrito Federal e senador pelo PDT/DF

Fonte: Jornal do Commercio - 04/11/2005

Abaixo a ditadura castrista em Cuba



O cientista político Armando Boito, professor da Unicamp e importante nome da intelectualidade marxista, afirmou o seguinte em entrevista ao Jornal da Unicamp, edição nº 307:

"Quanto à questão da democracia, o que eu posso dizer é que o socialismo exige democracia, mas não a democracia parlamentar, comandada pela burocracia do Estado capitalista, e corrompida pelo poder do dinheiro. A democracia da qual o socialismo necessita é uma democracia de novo tipo que integre, de modo efetivo, sistemático e com direito à divergência e discussão, os trabalhadores, seus partidos e suas organizações de massa no processo de definição das grandes decisões políticas, econômicas e culturais."

Nas palavras de Armando Boito, "o socialismo exige democracia(...)uma democracia de novo tipo que integre, de modo efetivo, sistemático e com direito à divergência e discussão, os trabalhadores, seus partidos e suas organizações de massa no processo de definição das grandes decisões políticas, econômicas e culturais." Infelizmente a maior parte da esquerda parece não pensar assim, parece que não aprendeu nenhuma lição com o fracasso do chamado "socialismo real", uma vez que continua apoiando a ditadura castrista em Cuba, uma ditadura burocratica herdeira em todos os sentidos do finado "socialismo real".

Esses setores da esquerda vivem confundindo o apoio a Revolução Cubana com uma visão acritica, beata e de sacristia, desse processo revolucionário, que impede que sejam reconhecidos os erros, e que tais erros sejam criticados no intuito de serem corrigidos. Fidel Castro baseou seu regime no mesmo modelo autoritario que existia na antiga URSS e no Leste Europeu, ou seja, no leninismo(bolchevismo). E esse regime continua de pé com Raúl Castro, apesar das recentes reformas. Mas os principais setores da esquerda continuam endeusando Fidel e seu irmão, insistindo na defesa de algo que a história já comprovou não ter sucesso.

O regime castrista é tão absurdo que chegou a perseguir os homossexuais no passado. Nas décadas de 60 e 70, declarar a homossexualidade em Cuba tornava a vida muito difícil para uma pessoa. Homossexualidade, assim como religião, era considerada "anti-revolucionária". Alguns homossexuais foram mandados para campos de trabalho forçado e outros fugiram do país. Felizmente isso mudou e hoje existe tolerância a homossexualidade por parte das autoridades comunistas de Cuba, assim como existe a liberdade religiosa. Entretanto continua existindo o regime de partido unico, a prisão de opositores do regime e até mesmo execuções sumárias.

O historiador marxista Jacob Gorender, um dos mais importantes intelectuais da esquerda brasileira, faz uma critica feroz ao leninismo(bolchevismo) em seu célebre "Marxismo sem utopia".

"O que deixei claro é que não se deve ter um modelo como o do Partido Bolchevique: uma direção de revolucionários profissionais apoiada numa rede de células, organizações e pessoas que não são profissionais, que estão na vida comum, e que se tornam militantes do partido. Esta concepção altamente centralizadora é indissociável do partido único, do autoritarismo e do arbítrio, como ocorreu na União Soviética. O partido único ditatorial já estava implícito na lógica do Partido Bolchevique desde o momento em que ele se propôs a tomada do poder. Rosa Luxemburgo percebeu isso, embora o dissesse de maneira muito simplificada. Da minha parte, militei em partidos inspirados por este modelo e vivi suas contradições.

O modelo bolchevique incorporou, em sua visão da ação política, um centralismo enorme, bem como a idéia de que poderia dirigir sozinho a sociedade. Tomemos, por exemplo, a questão da dissolução da assembléia constituinte na Revolução Russa: o problema não foi tê-la dissolvido, mas não se ter nenhuma proposta democrática alternativa. Os sovietes, desde a tomada do poder, passaram a ser uma correia de transmissão do partido e terminaram esvaziados. Em seguida, os sindicatos e as outras organizações de massa foram se tornando o que Lenin tinha em vista: correias de transmissão do partido único. Quando, em 1921, as tendências foram proibidas dentro do partido bolchevique, a idéia era de que isto seria temporário; mas o temporário se tornou permanente. Essas coisas práticas, mais do que as declarações, formam aquilo que chamo de modelo bolchevique. É isto que deve ser evitado."

(Jacob Gorender, em Teoria e Debate nº 43, onde fala sobre os temas abordados em "Marxismo sem utopia")


Ele também nos lembra que aquilo que existia no Leste Europeu, o chamado "socialismo real", nada tinha em comum com o verdadeiro marxismo.

"O chamado "socialismo real" não somente se desviou do marxismo, como se opôs frontalmente a ele." (Jacob Gorender, em Teoria e Debate nº 16)

E também deixa claro sua oposição ao regime de partido unico em Cuba.

"O regime ideal para Cuba não é o do partido único, como não o é para nenhum país socialista." (Jacob Gorender, em Teoria e Debate nº 16)

Assim como Armando Boito e Jacob Gorender, também acredito que só pode existir socialismo com democracia. Por isso me oponho aqueles que defendem acriticamente o regime castrista, confundindo a defesa da Revolução Cubana com a defesa do regime liderado por Fidel e seu irmão, Raúl Castro.

Sou defensor de um socialismo renovado, um socialismo com liberdade e democracia, por isso me oponho a ditadura castrista em Cuba. Acredito que a esquerda precisa romper com a herança autoritaria do bolchevismo.

A esquerda precisa criticar o autoritarismo castrista, assim como também precisa defender a Revolução Cubana, defender o socialismo. Deve apoiar com todo empenho a Revolução Cubana, a sua luta contra o imperialismo, as suas conquistas sociais, sem contudo confundir isso com apoio a ditadura de partido unico existente em Cuba. Deve lutar por uma renovação do socialismo cubano, uma renovação que promova o estabelecimento de um Estado democrático e socialista de direito, com pluripartidarismo, sindicatos, imprensa e eleições livres, maior liberdade religiosa, etc. Cuba precisa se tornar uma democracia socialista, assim como Vietnã, Laos, China, e Coréia do Norte também precisam.

Para encerrar esse assunto sobre Cuba, vejam o que diz o cientista político Armando Boito, em entrevista ao Jornal da Unicamp, edição nº 307:

"Cuba, para mim, não é um país socialista. Trata-se de um poder popular, antiimperialista, cercado pelo imperialismo estadunidense e que merece a solidariedade ativa dos povos da América Latina. Mas o seu Estado, marcadamente burocrático, e seu regime político, de partido único, são indicadores seguros de que os trabalhadores não controlam a política e a economia do país.

Não há, no nível da economia, a unidade entre o produtor direto e os meios de produção, unidade que só pode haver se houver, no nível político, uma democracia de novo tipo(...). Para haver gestão coletiva e democrática da economia pelos próprios trabalhadores, isto é, para haver uma organização socialista da economia, é preciso que essa democracia de novo tipo funcione. Uma coisa não vai sem a outra: a socialização da economia exige a socialização do poder político.

Alguns companheiros afirmam que se Cuba abrisse o seu sistema partidário cairia nas mãos da burguesia reacionária exilada em Miami. Esse é de fato um perigo – que, de resto, não deixa de existir com o sistema de partido único."

MARXISMO SEM UTOPIA

O historiador marxista Jacob Gorender, autor, entre outras obras, de O escravismo colonial e Combate nas Trevas, nos fala de seu mais recente livro Marxismo sem utopia (São Paulo, Ática, 1999). Trata-se de um ambicioso esforço de, à luz da teoria e da prática marxistas ao longo de 150 anos, libertar o pensamento revolucionário daquelas concepções que representam uma ruptura incompleta de Marx com o socialismo utópico.

Por José Corrêa Leite*

Pergunta: Você acaba de lançar o livro Marxismo sem utopia, que é uma análise dos desafios enfrentados pelo pensamento marxista na presente situação histórica. Qual é, na sua opinião, o lugar que a obra de Marx ocupa hoje?

Resposta: A importância da contribuição de Marx ao pensamento moderno dificilmente pode ser contestada. Ele está na galeria de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel, dos grandes pensadores que a humanidade já teve. Ele deu uma enorme contribuição ao conhecimento social, em especial à economia política (o que hoje se chama de ciência econômica), mas também à sociologia, ao que se denomina hoje ciência política, à teoria do Estado. E ainda, em primeiro lugar, a filosofia.

Mas se a contribuição de Marx me parece indiscutível e altíssima, o mesmo não se pode dizer do marxismo. É o marxismo como doutrina que hoje está em causa. O marxismo visava e visa fundamentar o objetivo socialista e abrange não só a obra de Marx como a de Engels e de seus sucessores - Lenin, Trotski, Bukharin, Gramsci, Kautsky, Lukács até pensadores mais recentes, como Marcuse e Althusser. Todos deram uma contribuição ao que se chama de marxismo.

Que o marxismo esteja em causa me parece bastante evidente. O mundo mudou muito neste século. A sociedade capitalista que hoje domina o planeta é muito diferente tanto com relação à época de Marx como com relação à primeira metade do século XX. Mudou também, notavelmente, a configuração da classe operária. Estes fatores questionam o marxismo como teoria que não avançou com as mutações da realidade histórica.

Há ainda outra questão: é impossível dissociar o marxismo do que aconteceu com a União Soviética e outros países que realizaram revoluções pretensamente socialistas. As transformações políticas, sociais e econômicas na União Soviética e nestes países foram fundamentadas com teses marxistas, por pessoas que se consideravam marxistas. Por mais que nos repugne, não é possível deixar de reconhecer que Stalin também era marxista, o que ele escreveu e fez se baseia no que considerava como marxismo. Não se pode, então, dissociar o marxismo desses fatos, que o desacreditaram diante da opinião mundial.

O que me propus a enfrentar foram alguns dos problemas que vieram com esse descrédito sofrido pelo marxismo.

Pergunta: Marx estabelece um campo teórico que hoje se encontra em crise. Sua obra é um esforço de repensar quais seriam as bases para voltar a dotar o marxismo de vitalidade, de condições para interpretar o mundo contemporâneo e projetar sua transformação rumo ao socialismo. Quais seriam os eixos dessa atualização do marxismo?

Resposta: Esforçando-me por abordar tema tão complexo e procurando, no que foi possível, reportar-me ao que havia de mais recente, constatei que o eixo da abordagem devia ser o percurso incompleto de Marx e Engels da utopia para a ciência. Eles ficaram no meio do trajeto, não foram até o fim, embora se propusessem a isso. Substituir a utopia pela ciência é o objetivo declarado com todas as letras no Manifesto Comunista. Engels também abordou o projeto em uma parte do Anti-Dühring, que se transformou na obra Do socialismo utópico ao socialismo científico. E o propósito de Marx, ao dedicar seus maiores esforços a elaborar O capital, foi dar uma base científica à idéia do socialismo, tirá-la daquelas construções quiméricas de Fourier, Saint-Simon, Proudhon, dos anarquistas etc., e assentá-la no que ele considerava um fundamento científico.

Trata-se, pois, de libertar a teoria de Marx do que existe de incompleto na sua ruptura com o utopismo. Algumas idéias muito importantes do ambiente utópico, que Marx encontrou já formado quando se desprendeu de Hegel e de Feuerbach, transferiram-se para a obra que pretendia fosse plenamente científica. Mas ele não conseguiu se libertar completamente de tais idéias. Seus melhores seguidores (Lenin, Gramsci, Lukács e outros) modificaram muita coisa, cada um deu sua contribuição, porém as teses utópicas perduraram.

Foi isso que procurei abordar de maneira sucinta no livro Marxismo sem utopia. Examinei os elos lógicos e históricos do pensamento de Marx e depois como isso foi tomando desvios à medida que era implementado com Kautsky, Lenin, Bukharin, Trotski etc. Cada um enfrentava obstáculos concretos e dava uma contribuição que, de certo modo, desviava da linha em que vinha a teoria, até este corpus teórico chegar aos nossos dias. Esta análise me permitiu tirar conclusões a respeito daquelas teses que deveriam ser filtradas, porque já não são compatíveis com os acontecimentos históricos e com as conclusões lógicas que se deve tirar da própria doutrina.

Pergunta: Duas dessas teses utópicas são a idéia de que o proletariado constitui-se num sujeito revolucionário imanente à história da humanidade e a de que existiria uma história dotada em si mesma de um sentido. Trata-se, pois, de uma crítica aos elementos deterministas e teleológicos presentes no pensamento marxista...

Resposta: Eu queria, antes, colocar uma outra questão, fruto da minha percepção de algumas evoluções das ciências exatas dessa segunda metade do século XX. O que me levou à questão da indeterminação, da incerteza e da chamada teoria do caos, hoje bastante conhecida. Marx era dialético e não tinha uma concepção fatalista da história. A história era, também para ele, cheia de acasos; ele não considerava que tivesse um rumo prefixado, a ser desvendado pela teoria. Mas constatei que suas referências à indeterminação foram feitas sempre em textos menores e em cartas. Já O capital é uma fábrica de certezas sobre o advento do socialismo. Eu o li assim; ele me imbuiu desta certeza, quando era muito jovem, e de outra maneira seria incompreensível a minha militância. Quando Gramsci chamou a Revolução Russa de "revolução contra O capital" também estava refletindo interpretação idêntica da magna obra de Marx. Obra genial, sem dúvida, mas dirigida à produção da certeza de que o comunismo é inevitável.

Penso, por isso, que o elemento de incerteza e indeterminação na obra de Marx não é suficiente. Pode-se dizer que ele existe, mas é fraco. Não tem a força que tem "a determinação", "o inevitável", "a férrea necessidade", expressões do próprio Marx. Por isso me preocupei em escrever um capítulo especial sobre o assunto e voltar a ele várias vezes no curso da argumentação.

Pergunta: O capítulo "Sistema, estrutura e incerteza: o acaso e suas maravilhas"?

Resposta: Exatamente. Eu me apoiei em cientistas como Ilya Prigogine, David Ruelle, Niels Bohr, Werner Heisenberg, Jacques Monod, e outros cientistas que trabalharam a questão. Claro que com os limites da minha fraca preparação nas ciências exatas. O pensamento desses cientistas é importantíssimo para o marxismo, que deve incorporar os paradigmas da indeterminação e do caos na sua concepção da história.

Pergunta: Manuel Sacristan e Daniel Bensaid apontaram a existência de uma tensão, na obra de Marx, entre uma visão positivista de ciência, dominante no século XIX, e uma visão dialética, o que ele chamava de ciência alemã contraposta à inglesa, na qual a análise da sociedade não está desligada da questão do sentido, não há a dualidade sujeito-objeto, as conseqüências da ação humana não são passíveis de pré-determinação. Esta tensão percorre o conjunto da obra de Marx. Se O capital tem todo este viés determinista, por outro lado, os textos escritos na década de 1840, em uma conjuntura revolucionária e que constituíram o marxismo como visão de mundo e sistema teórico, são muito mais marcados por esta visão dialética. Não seria, talvez, dar um peso desproporcional ao elemento determinista na visão de Marx enfatizar tanto o papel de O capital?

Resposta: Eu jamais pensaria em depreciar esta obra. Ninguém estudou uma formação social de maneira tão completa, tão holística, como fez Marx em O capital. Não se trata de uma obra só de economia, mas nela existe a análise mais profunda da estrutura e da dinâmica da sociedade moderna. Mas o sentido dela, o que Marx quis e o que está realmente expresso na obra, foi produzir a certeza, primeiro, de que o capitalismo é um sistema profundamente explorador, opressivo e injusto para a grande maioria da sociedade e, depois, difundir a certeza de que isso pode ser superado e o será por uma sociedade socialista. Esta é a idéia que tenho a respeito d'O capital. Obra que foi, sem dúvida, o fundamento do marxismo, dando ao movimento socialista certezas apoiadas no peso dos seus argumentos científicos: a sociedade burguesa não é harmônica, é dividida em classes antagônicas, há uma minoria que explora a grande maioria produtora da riqueza, o trabalho é a origem do capital, que se nutre da produção de mais-valia, da apropriação do sobreproduto do trabalho. Estas teses constituíram o fundamento do que se chama marxismo e continuam atuais.

Mas a questão que se segue das perguntas que você fez é que Marx tirou daí uma conclusão que não tem força lógica. O proletariado é a classe explorada específica do sistema capitalista, porém isso não significa que seja uma classe revolucionária, que também queira e possa se propor o objetivo de transformação socialista da sociedade, para tornar-se classe dominante. Tal conclusão não é uma conseqüência necessária. O proletariado pode ser uma classe explorada e ser, como afirmo, ontologicamente reformista.

Pergunta: Henry Maler diz que a utopia necessária compromete a utopia desejada; a promessa de que o socialismo virá de uma maneira inevitável acaba por comprometer a idéia de que trata de lutar pelo socialismo...

Resposta: Isso sempre me atormentou. Se o socialismo é inevitável, se ele vem necessariamente das contradições objetivas, então que papel tem o meu sacrifício e o de tantos outros? Eu nunca consegui uma resposta teórica. Este livro é resultado de tormentos íntimos que vêm de muitos anos e que, de certo modo, fui postergando. Mas a história avançou de tal maneira que não pude mais postergar o enfrentamento destas questões.

Aí entra o elemento da incerteza, que é fundamental na prática, e a célebre frase de Gramsci, que coloquei até sem citá-lo: "de certo, só temos a luta, não seus resultados". Vamos ter que lutar, sim! O proletariado reformista luta, procurei frisar. Ele não é uma classe apática, passiva, que deixa cooptar. Ele é combativo, mas de modo reformista.

A idéia de reformismo ontológico causa certa surpresa, parece forte demais, é possível, mas não é nova. Creio, por exemplo, que Lenin, apoiando-se em Kautsky, atinou para isso quando disse que o proletariado espontaneamente só atinge a consciência sindical, que é a consciência reformista... A consciência revolucionária teria que ser introduzida de fora, por ser uma realização teórica da intelectualidade. Mas Lenin não concluiu daí que o proletariado seja uma classe, como afirmo, ontologicamente reformista, embora se trate de uma conclusão lógica necessária.

Com o Estado do bem-estar social, nos anos 50 e 60, proliferaram teses que afirmavam ser o proletariado uma classe cooptada pela burguesia. O Estado do bem-estar social tinha propiciado tamanhas prerrogativas e vantagens que a classe operária não tinha mais por que lutar pela transformação social radical. Naquela época me opus a tais teses, não conseguia aceitar que tivessem curso no Brasil. Hoje, devo modificar minha apreciação. Não é um problema só do Estado do bem-estar social, é um problema mais geral. Não é que o proletariado não seja combativo, torno a frisar, mas o impulso dele se dá no sentido de obter benefícios dentro do sistema capitalista e não fora dele. Sendo assim, o Estado do bem-estar social - o Welfare state - foi não só cooptação, mas conquista do proletariado, a mais alta por ele alcançada na história do capitalismo.

Como, então, explicar a Coluna de Paris e a Revolução Russa? A explicação está exatamente em que são dois fatos casuais, irrepetíveis. Duas conjunturas excepcionais de gravíssimas derrotas na guerra, daí decorrendo que o Estado burguês ficou impotente, esfacelado. No caso francês, os trabalhadores parisienses fizeram o que a burguesia ficou incapaz de fazer: tomaram o poder e passaram a administrar a cidade. No entanto, um episódio efêmero. O caso russo também veio com a conjunção de uma burguesia impotente e desprestigiada, uma derrota terrível na guerra (mesma situação da Comuna) e um partido talentoso, com gente de grande disposição e capaz de propor aquilo que a massa do povo russo, particularmente a enorme massa camponesa, queria vitalmente: a paz e a terra. Os bolcheviques decidiram lutar pelo que as massas queriam, o que lhes deu enorme prestígio. As conseqüências se desdobraram por setenta anos, até completar um ciclo histórico.

Pergunta: Não existe nenhum sujeito revolucionário imanente na sociedade, o que há são forças políticas que podem ser capazes de mudar a sociedade e que têm que levar em conta as contradições sociais. Mas estas forças são construções políticas e não dados "objetivos"...

Resposta: Creio que esta é uma parte bastante polêmica do que escrevi em Marxismo sem utopia. Reconheço! Outra foi a proposição de abandonar a tese da ditadura do proletariado. O conceito de ditadura se presta a tantas confusões, que não vale a pena insistir nele. Sugiro que a transformação social pode ser obra de um bloco de assalariados sob a hegemonia dos assalariados intelectuais. Nos países capitalistas desenvolvidos, 75 a 90% da população vivem de salário. Mas este conjunto de assalariados é muito heterogêneo e o bloco, ao qual me refiro, deve ser delimitado àqueles assalariados que vivem somente do seu trabalho, sem auferir rendas de patrimônio.

Constatei o crescimento explosivo que está tendo o segmento dos assalariados intelectuais. A questão da intelectualidade se torna, então, mais ampla. Não é mais a intelligentsia, no sentido russo, não são somente os formadores de opinião - escritores, jornalistas, artistas, professores. Trata-se agora de gente que está inserida no processo direto da produção.

A produção capitalista exige hoje a participação de um número crescente de assalariados intelectuais. Dois setores são mais evidentes: primeiro, o de pesquisa e desenvolvimento, com a enorme expansão dos laboratórios e das instituições de pesquisa, tanto em universidades e entidades públicas, como nas grandes empresas privadas. Segundo, o trabalho propriamente intelectual, geralmente chamado de software, que tem um peso cada vez maior no processo direto da produção. Marx conseguiu decifrar o processo de organização do trabalho de seu tempo, mas este processo mudou muito desde então. A nova configuração da organização do trabalho deve ser tema da maior significação para a teoria socialista.

Pergunta: Lenin respondeu às contradições que o marxismo enfrentava na questão do sujeito revolucionário promovendo o agenciamento político do proletariado pelo partido. Seu livro aponta para uma revalorização da autonomia do político e, portanto, para o papel central das instituições políticas na constituição do sujeito revolucionário. Sob que forma se dá a organização do bloco histórico que você propõe?

Resposta: Sem dúvida, a luta e a transformação sociais exigem agentes que sejam capazes de liderar essa luta. Eu não proponho nenhuma receita nem a adesão a algum partido existente. O que deixei claro é que não se deve ter um modelo como o do Partido Bolchevique: uma direção de revolucionários profissionais apoiada numa rede de células, organizações e pessoas que não são profissionais, que estão na vida comum, e que se tornam militantes do partido. Esta concepção altamente centralizadora é indissociável do partido único, do autoritarismo e do arbítrio, como ocorreu na União Soviética. O partido único ditatorial já estava implícito na lógica do Partido Bolchevique desde o momento em que ele se propôs a tomada do poder. Rosa Luxemburgo percebeu isso, embora o dissesse de maneira muito simplificada. Da minha parte, militei em partidos inspirados por este modelo e vivi suas contradições.

O modelo bolchevique incorporou, em sua visão da ação política, um centralismo enorme, bem como a idéia de que poderia dirigir sozinho a sociedade. Tomemos, por exemplo, a questão da dissolução da assembléia constituinte na Revolução Russa: o problema não foi tê-la dissolvido, mas não se ter nenhuma proposta democrática alternativa. Os sovietes, desde a tomada do poder, passaram a ser uma correia de transmissão do partido e terminaram esvaziados. Em seguida, os sindicatos e as outras organizações de massa foram se tornaram o que Lenin tinha em vista: correias de transmissão do partido único. Quando, em 1921, as tendências foram proibidas dentro do partido bolchevique, a idéia era de que isto seria temporário; mas o temporário se tornou permanente. Essas coisas práticas, mais do que as declarações, formam aquilo que chamo de modelo bolchevique. É isto que deve ser evitado. Agora, como fazer, não tenho receita.

Quando o PT surgiu, criou a esperança de que produziria uma superação eficaz do modelo bolchevique e seria capaz de implementar uma nova prática revolucionária no Brasil. Infelizmente, isto não se deu. O PT foi capaz de manter a esperança transformadora até a campanha de 1989, mas depois se desviou cada vez mais para um modelo francamente social-democrata. O que, em parte, é resultado de uma conjuntura mundial de refluxo da esquerda socialista e das idéias marxistas e a partir de 1990, conseqüência do início no Brasil do processo de reestruturação produtiva, que provocou um grande desemprego estrutural e uma crise ainda não sanada no movimento sindical. Tudo isto influi no PT. Se o partido se mostrar fiel a compromissos característicos da social-democracia combativa, que produziu o Estado de bem-estar social, será algo que podemos até mesmo considerar um ganho político. Mas se ele se vincular à atual social-democracia da terceira via, será realmente um desastre para o movimento socialista brasileiro.

Pergunta: Uma das teses centrais do utopismo de Marx, que seu livro critica, é a idéia do desaparecimento do Estado. Mas como pensar a construção de uma sociedade efetivamente democrática mantendo a dicotomia entre governantes e governados, que é justamente o que caracteriza o Estado?

Resposta: Esta é também uma questão que me atormentou por muito tempo. Fui educado na idéia de que o Estado vai desaparecendo, não imediatamente como propunham os anarquistas, mas paulatinamente, após a tomada do poder pelo proletariado. Essa tese sempre foi para mim o que hoje chamam de "cláusulas pétreas", no caso da nossa Constituição. Mas a minha constatação é que em todas as sociedades em que houve uma revolução dita socialista, o Estado se fortaleceu tremendamente.

Nem Marx nem Engels escreveram que o desaparecimento do Estado significa o desaparecimento de qualquer administração central. Eles repetem a célebre tese de Saint-Simon, de que o governo dos homens será substituído pela administração das coisas. Sem dúvida, muita coisa que é hoje política - porque temos o governo dos homens - deixará de ser, porque se tornará meramente tecno-administrativa. Não serão eliminadas as funções técnicas e administrativas do Estado atual, mas só aquelas que dizem respeito à opressão política e social, à luta de classes.

Mas há outras questões novas e muito importantes no quadro atual, ignoradas por Marx e seus seguidores. Uma é a diferença de gerações. Hoje se vive em média 30 ou 40 anos mais do que na época de Marx e Engels, o que aumenta a diferença entre gerações. Há o problema dos idosos: o aparelho social, previdenciário e médico-sanitário não acompanhou o aumento na expectativa de vida. Temos, então, interesses diferenciados de gerações. Não se trata somente de uma questão administrativa. Ela envolve opções políticas. Temos também a ecologia: o que produzir, para quem produzir, em que medida. Novamente temos questões que exigem definição de prioridades. Isto significa política e conflitos. Não de classe, mas opções políticas. A própria idéia de que as forças produtivas não podem conhecer um desenvolvimento indefinido limita os recursos para resolver certas demandas. Marx só concebia um limite para as forças produtivas: o das relações de produção obsoletas. Uma vez eliminado este empecilho, as forças produtivas se desenvolveriam sem limites. Mas hoje sabemos que há limites ecológicos, recursos escassos, necessidade de preservar o meio ambiente etc. Esses fatos me levam à conclusão de que não há como se propor extinguir o Estado e as funções políticas.

Engels tem duas explicações sobre a origem do Estado: uma, segundo a qual o Estado surgiu para satisfazer certas funções e outra que surgiu da luta de classes. Se considerarmos válida a primeira explicação, pode-se conceber que certas funções serão permanentes e precisarão de um Estado político, o que soa como redundância. Daí eu afirmar que a extinção do Estado é uma tese anarquista, que Marx e Engels receberam e incorporaram a sua doutrina, ressalvando apenas que a extinção não poderia ser imediata, que teria de ser paulatina. Mas tal herança anarquista deve ser eliminada.

A mesma coisa com a famosa divisão do socialismo em duas etapas. Proponho que só deva existir aquilo que Marx chama a primeira etapa. A segunda etapa antevê um paraíso judaico-cristão. Não podemos pensar seriamente em uma sociedade em que todas as necessidades são sempre satisfeitas. Esta é uma concepção estática das necessidades. E sabemos que, dadas as limitações dos recursos acessíveis, certas necessidades não poderão ser satisfeitas para todos. Alguns poderão ter atendidas suas novas necessidades e outros precisarão esperar, porque haverá escassez.

Pergunta: Se existir poder político, existirão aqueles que vão exercer as atividades políticas de maneira mais permanente. Como pensar uma sociedade não-capitalista democrática e a relação, nela, entre governantes e governados? Como pensar o exercício do poder no socialismo e sua relação com a atividade política especializada?

Resposta: Algumas idéias me parecem importantes. Uma delas é que nossa sociedade está muito mais aparelhada materialmente para o exercício da democracia direta do que qualquer outra do passado; as possibilidades de comunicação hoje são formidáveis. O problema é que os meios de comunicação constituem propriedade privada e estão centralizados em grandes organizações empresariais, o que restringe ou anula o seu aproveitamento democrático. Mas, uma vez socializados os meios de comunicação, penso que a democracia direta pode vir a ser uma realidade praticada sem hora marcada, a toda hora. O futuro dirá como isso vai ser feito.

Destaco ainda a existência de uma experiência de organização da sociedade civil bem maior que no passado, com uma multiplicidade de entidades, instituições, organizações maiores e menores em todos os meios sociais. Isso nos dá indicação do que pode ser, no futuro, a organização democrática da sociedade e a relação, também democrática, do Estado com a sociedade civil.

Outra questão que me parece importantíssima é a da garantia dos direitos individuais, do Estado de direito, como se diz hoje. O fato de os indivíduos terem certos direitos diante do Estado e diante da sociedade - que não se dissolvem nela - é algo fundamental. Este é um elemento da doutrina liberal que devemos incorporar em nossa visão e levar à prática,com muito mais conseqüência do que faz a sociedade burguesa.

É isto que vai dar concretude à democracia, que deve ser pluralista. O central para que a democracia exista é o direito à divergência; a maioria tem o direito de dirigir, mas a minoria deve ter a segurança de ser respeitada, se organizar, fazer proselitismo, expressar suas opiniões. Para mim, isso é o fundamental, condição sine qua non da democracia. Não devemos adotar uma visão formalista de que pelo fato de haver eleições periódicas, estamos numa democracia. Inúmeras eleições são pura farsa. Nos países ditos socialistas, 99% dos eleitores apoiavam o governo. Não dava para levar a sério. Nos países burgueses, uma infinidade de meios, em particular a força tremenda que a mídia tem hoje, é usada para manipular o pensamento das grandes massas no sentido de que seja favorável à burguesia. Não sou, evidentemente, contra a escolha dos dirigentes por via eleitoral democrática. Sou contra a conclusão de que pelo mero fato de que existem eleições, já temos democracia.

Carlos Nelson Coutinho, a quem eu prezo muito, afirma que a democracia é um valor universal. Estou de acordo com a tese. É um valor universal, não só para hoje, mas também para amanhã, no regime socialista. Mas ele estende a tese ao postular que a luta pela conquista do socialismo deve ser, igualmente, democrática. Aí eu já não posso concordar. Podemos conjecturar sobre uma transição democrática e pacífica para o socialismo. Mas se trata de uma perspectiva condicional. Depende de que o adversário respeite as regras do jogo.

Pergunta: A atividade política no quadro de superação do capitalismo pode também ser potencializada pelas transformações tecnológicas que promovam a redução substancial da jornada de trabalho e as condições para uma vida liberada da opressão...

Resposta: A redução da jornada de trabalho é uma tendência histórica concreta. Há cem anos se trabalhava duas vezes mais do que hoje. A produtividade do trabalho aumentou enormemente. E não parece que essa tendência tenha chegado ao fim. Há os limites ecológicos, mas a tecnologia ainda tem muito chão para se desenvolver.

Mas por que a jornada de trabalho não está diminuindo agora? Porque o capital não quer e os trabalhadores não têm tido força para se contrapor às imposições do capital. Os trabalhadores estão na defensiva, sofrendo com o desemprego estrutural e todos os fenômenos da reestruturação capitalista. Os assalariados intelectuais ainda são elementos de legitimação da ordem existente, não passaram para o lado do socialismo, continuam, como classe, defendendo a ordem existente. Nestas condições, está difícil conseguir uma nova redução mundial da jornada de trabalho.

As possibilidades tecnológicas não levam, todavia, à eliminação do trabalho. Em alguma medida, sempre se trabalhará. Tudo aponta, porém, para uma situação em que o trabalho virá a ser um momento secundário na vida das pessoas. Hoje, o trabalho continua central, mas ele pode não ser central no futuro. E não é parte do objetivo do socialismo a idéia de que trabalhar "é o nosso destino e que isso é formidável". Isso não está certo. O trabalho continuará existindo, mas o tempo livre será muito mais extenso e dará novas possibilidades à realização humana - no campo das relações afetivas, da escolha de atividades culturais superiores, do aprendizado voluntário, do lazer não comercializado e degradado, mil e uma coisas que hoje só estão ao alcance de quem é rico.

Pergunta: O penúltimo capítulo do seu livro tem como título "Uma escolha a ser feita". Essa escolha é a do engajamento pela transformação da sociedade ou não, a aceitação ou não do sistema que está posto. A concepção que permeia o livro é uma crítica da história como progresso fatal, como destino inelutável, como algo com tendência inscrita ou necessidade inevitável...

Resposta: Sem dúvida! Esforcei-me por superar essa concepção de história. A idéia de que o capitalismo vai ser inevitavelmente sucedido pelo socialismo não é sustentável. Eu apresento um argumento que pode parecer simplista, mas que não é: hoje os homens podem se auto-exterminar como espécie, o meio para isso existe! Houve infinitos massacres na história, mas nunca esta possibilidade de auto-extermínio total. Só por isso, devemos ser prudentes em nossas afirmações. É só retrospectivamente que há alguma coisa de lógico na seqüência de formações sociais. Supor o capitalismo antes do feudalismo não parece lógico, mas a verdade é que a seqüência institucionalizada nos famosos manuais marxistas-leninistas é cheia de exceções. Houve um modo de produção asiático, a escravidão só ocorreu em uma área restrita da bacia do Mediterrâneo e, modernamente, ressurgiu nas Américas. Tantas exceções fazem com que a tese geral não se sustente.

Pergunta: Você vê algum sentido de progresso na história humana?

Resposta: Há quem diga que ocorreu progresso material, mas que, do ponto de vista ético, das relações propriamente humanas, houve até regressão. Penso que há aí uma lirificação do passado, das pequenas comunidades e das sociedades patriarcais. Não penso que o progresso seja inevitável nem que seja ilimitado. Creio que pode haver muitas regressões, porém que a humanidade tem conseguido avançar. Custou muito. Este século conheceu duas guerras mundiais terrivelmente destrutivas e desde então estamos a todo momento com alguma guerra local em curso. Mas foi possível avançar, ainda que a um custo tremendo. E o que aconteceu pelo menos nos dá a visão de um caminho que pode ser percorrido no sentido do socialismo, nos dá uma perspectiva de futuro. A história não se fechou, ao contrário do que disse Fukuyama, para citar um autor que já está fora das citações. Fukuyama, sim, fechou a história. Para ele, com o capitalismo liberal se atingiu o máximo. Mas a história não chegou ao fim, embora hoje o capitalismo domine o planeta.

Pergunta: A questão do mercado no marxismo também é objeto de um tratamento crítico na sua obra?

Resposta: Sem dúvida. Quando se começou a falar em socialismo de mercado, com a perestroika, uma grande quantidade de obras passou a tratar do tema. Os chineses são explícitos na tese de que o que existe na China é um socialismo de mercado. Eu me lembro de que Mandel protestou contra esta tese, afirmou que mercado e organização socialista da produção não se coadunam, não é possível compatibilizar teoricamente uma coisa com a outra. Aí entra também uma experiência de planejamento central, que não deve ser desprezada. A experiência soviética é a primeira na história mundial de uma sociedade complexa, com as forças produtivas modernas, em que houve um projeto de planejamento centralizado, na verdade um planejamento total. Procurei examinar as questões principais desse planejamento, os impasses em que incorreu e que depois resultaram em um desastre não superado. Tentaram injetar elementos de livre iniciativa privada para atenuar a rigidez do planejamento, mas não adiantou.

Na minha opinião, uma vez constituído um poder socialista, com a dominação do bloco de assalariados sob a liderança dos assalariados intelectuais, em um Estado com objetivos socialistas, não se pode ir muito além do ponto a que chegou a própria economia da sociedade burguesa. Deve-se superar este ponto, avançar além do capital, como diz Mészáros, mas não pretender impor um projeto de planejamento total, como o que os dirigentes soviéticos pensaram efetivar. Na União Soviética, estatizaram toda a produção de bens de produção. E os bens de consumo adquiridos pela população ficaram submetidos a preços administrados. O mercado ali era ficção. Na agricultura, impôs-se a coletivização compulsória. Havia um espaço para a agricultura familiar, mas era marginal. O planejamento não só foi total, mas totalitário.

Penso que isso deve ser evitado, mesmo no caso de economias tão desenvolvidas como os Estados Unidos, o Japão ou a Alemanha. Lester Thurow escreve que as empresas multinacionais, ao contrário do que se pensa, não planejam sua perspectiva para vinte anos, mas sim para três a cinco anos. Isso é algo que o quitandeiro da esquina não pode fazer. Ora, três a cinco anos é praticamente o tempo dos planos qüinqüenais soviéticos. A socialização da produção já está avançada na própria sociedade capitalista, podemos dar alguns passos à frente, aumentar os prazos, mas não em excesso. Deve-se pensar em praticar um processo de tentativa e erro, porque senão vamos adotar de novo aquele tipo de planejamento soviético e caminhar, mais uma vez, para o desastre.

É neste ponto que entra a questão do mercado: o que ele é, quais são suas possibilidades. O mercado é a forma de divisão social do trabalho e da produção na economia mercantil simples e na economia capitalista. É um alocador de recursos, pelo jogo de oferta e procura, indica onde é que se deve investir, funcionando como mostrador de preços. Seus apologistas não levam em conta as crises cíclicas, as depressões, os desperdícios enormes que esta alocação implica e a tendência à centralização da produção, conduzindo à extorsão da população, que sofre com os preços dos cartéis e monopólios. Mas ainda não temos um mostrador alternativo melhor do que o mercado. Pode ser que, com os computadores, já se consiga inventar uma visibilidade dos preços, que não passe pelo mercado. Mas isso ainda não existe. Enquanto não houver um dispositivo alternativo, deveremos apelar em última instância para o mercado. Um mercado regulado pelo planejamento.

Pergunta: Uma série de obras de Marx e Engels e do marxismo faz uma contraposição entre um socialismo quimérico, utópico, projetos que não têm fundamentação nas condições de vida e em forças sociais, e o que seria um socialismo formulado a partir de uma análise científica da sociedade. No entanto, toda uma corrente de pensadores marxistas, desde Ernst Bloch, vai destacar que a esperança é um elemento constitutivo da condição humana e os seres humanos sempre projetam perspectivas de melhorias, o que, em escala da sociedade, são projetos utópicos, de realidades que não existem. Depois, parece-me necessário, ao apontar a luta por uma sociedade socialista, sermos mais precisos do que foram Marx e Engels ao descreverem as características desta sociedade, porque já temos um acúmulo de experiências, positivas e negativas. Podemos não chamar isso de utopia, mas trata-se de uma sociedade que ainda não existe e pode nunca existir, que queremos construir e que não é simplesmente uma projeção científica. Neste sentido, embora concorde com todo o seu trabalho de crítica dos elementos utópicos, no sentido de quiméricos, presentes no pensamento marxista, não me parece que possamos pensar uma política de transformação da sociedade sem o alimento da utopia...

Resposta: Tenho ouvido o argumento que você coloca, de que não é possível viver e lutar sem utopia, de que abrir mão da utopia seria um conformismo tremendo. É preciso ter uma visão de algo que não existe hoje, que pode ser até fantasioso, porém que nos dá impulso e incentiva na luta social. Não desconheço este impulso que uma idéia utópica pode fornecer. Não pretendi, no meu livro, fazer uma exposição de tudo que já se falou sobre utopia. Nem sequer me referi a Karl Mannheim, com sua obra Ideologia e utopia. Mas coloco uma outra questão: a idéia de que precisamos encontrar motivadores socializantes é indispensável. Sem isso não há impulso transformador. Mas podemos dispensar a utopia. O nosso processo de luta sempre implicará tentativa e erro, correção do erro e nova tentativa. Poderemos, no entanto, avançar sem cair no realismo míope da engenharia social de Karl Popper. Rejeito a idéia de só inovar aquilo que puder ser revertido. Não, uma revolução produz também o irreversível. Mas coloco uma outra questão, levantada por adversários do marxismo, em particular Isaiah Berlin: os partidários de utopias, quando chegam ao poder, como aconteceu exatamente nos países ditos socialistas, querem que a sociedade se enquadre nas suas concepções e fazem delas um leito de Procusto. Se não se enquadra, então que se mutile o organismo para que caiba no leito. Isto é exatamente perigoso. Stalin foi o utopista do socialismo num só país, e Pol Pot praticou o genocídio em nome de uma sociedade igualitária absoluta. Essas utopias produziram as tragédias que conhecemos. A meu ver, podemos e devemos encontrar na própria realidade social os objetivos concretos, possíveis e viáveis, para transformá-la. A revolução socialista sempre implicará luta e sacrifícios, Porém não precisará terminar tragicamente, como aconteceu no século XX.


*José Corrêa Leite é membro do Conselho de Redação de Teoria e Debate

Fonte: Revista Teoria e Debate / nº 43 - janeiro/fevereiro/março de 2000

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O papel do Estado na economia - contra a maré

O papel do Estado na economia - contra a maré

José Guimarães*

Artigo publicado originalmente no jornal O Globo, edição de 28/11/2011.

A crise mundial de 2008 e seu repique atual colocaram de pernas para o ar teorias ultrapassadas, e mais uma vez vemos que o Estado tem papel central para evitar as estripulias do mercado e garantir o desenvolvimento econômico. Velhas convicções neoliberais ficaram abaladas diante de um cenário em que o capitalismo vê-se frente à necessidade de socorro do Estado.

Naquele momento, não faltaram vozes defendendo saídas ortodoxas para uma crise cuja gênese estava na própria concepção equivocada do papel do Estado, que resultou na fragilização dos mecanismos de fiscalização e regulatórios sobre o dito mercado, principalmente o financeiro. O paradoxo cômico é que grandes grupos, nos EUA, por exemplo, socorreram-se de recursos públicos para tapar os buracos gerados por sua desenfreada especulação. Escondeu-se, naquele momento, o receituário neoliberal - menos impostos e Estado e liberdade plena para o mercado -, que voltaria a ser defendido logo depois.

O Brasil foi, com Lula, e continua seguindo, com a presidente Dilma Rousseff, no contrafluxo dos preceitos do neoliberalismo, garantindo ao país plenas condições de enfrentamento de uma crise de contornos imprevisíveis. Ampliamos o papel do Estado, recuperamos os serviços públicos, implementamos políticas sociais inclusivas, alargamos o leque de parcerias comerciais, incentivamos as exportações e, como suporte essencial para o crescimento, promovemos investimentos públicos e incentivamos os privados na infraestrutura.

No ápice da crise, usamos todo o arsenal à mão - redução de impostos, fortalecimento da atuação dos bancos públicos, orientação à Petrobras para ampliar os investimentos, lançamento do maior programa de habitação popular da história do país, o Minha Casa Minha Vida. A superação, portanto, da crise, só foi possível com o rompimento da lógica neoliberal, iniciada no primeiro governo Lula. Ao fortalecer o Estado, criamos musculatura para enfrentar a crise cujo epicentro está na Europa e nos EUA, e, ao mesmo tempo, demos sequência às política de desenvolvimento com distribuição de renda, superando históricas desigualdades sociais e regionais.

Temos hoje as contas públicas saneadas, inédito crescimento da taxa de emprego, ascensão social de milhões de brasileiros, um mercado interno robusto, menor vulnerabilidade aos humores do fluxo de capitais - ao contrário do que ocorria no período FHC. Sem populismo fiscal, temos um modelo de crescimento onde o Estado alavanca condições para a expansão econômica, via empresas estatais e públicas como Petrobras, Banco do Brasil, CEF e BNDES. Graças à existência de bancos públicos, que escaparam da privatização do governo demotucano, foi possível criar canais de crédito para incentivar o consumo. O mercado interno foi impulsionado pela expansão do crédito, a Lei Geral da Microempresa e a recuperação real do salário mínimo.

O uso adequado dos recursos para a implementação de políticas anticíclicas, garantindo proteção aos cidadãos das inconstâncias e humores de um mercado dominado por especuladores, tem permitido ao Brasil atravessar a crise sem sobressaltos, num cenário que nem de longe lembra os fracassos do governo do PSDB e DEM ao enfrentar crises de muito menor impacto.


*José Guimarães, deputado federal (PT-CE), é vice-presidente nacional do PT

Os socialistas do PT - Partido dos Trabalhadores



O PT - Partido dos Trabalhadores, nunca foi comunista. Apesar de fortemente influenciado pelo marxismo, o partido nunca se declarou marxista, defendendo um socialismo plural que reuniu várias vertentes do marxismo, com setores da esquerda católica(Teologia da Libertação), ecologistas, humanistas, e sindicalistas compromissados com a luta da classe trabalhadora. O PT sempre garantiu o pleno direito de tendências permanentes se organizarem em seu interior, o que garantiu essa pluralidade.

Fundado em 10/02/1980, o partido nasceu criticando o autoritarismo e o burocratismo dos regimes socialistas na URSS e no Leste Europeu, deixando claro que sem democracia não pode existir um socialismo verdadeiro. Como disse o deputado federal Emiliano José: "Logo ao nascer, o PT disse a que vinha: a luta pelo socialismo era indissociável da luta pela democracia. Não mais a ditadura do proletariado. Não mais o sacrifício das liberdades em favor de conquistas sociais." (Emiliano José; em "O PT e o Brasil")


No princípio, o PT era caracterizado por um certo sectarismo, limitando suas alianças aos partidos de esquerda. Mas após as 3 derrotas de Lula, nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998, o partido abandonou esse sectarismo, tornando-se vocacionado para governar o Brasil.

"Depois de muitos tropeços e equívocos, compreendeu que um sonho que se sonha só é apenas um sonho. Chegar ao poder, governar o Brasil exigia amplitude, capacidade de fazer alianças com os diferentes.A revolução deixava de ter data marcada. Não mais a quimera do grande dia da conquista do céu. A transformação do País seria fruto de uma paciente construção cotidiana. Guerra de posição. Não mais o assalto ao Palácio de Inverno. Gramsci assume o lugar antes ocupado por Lênin. As classes trabalhadoras tinham que ser conquistadas e conquistar corações e mentes da sociedade brasileira. As forças do atraso eram muito mais fortes do que pretendia o jovem PT." (Emiliano José; em "O PT e o Brasil")

O PT chegou ao governo com a vitória de Lula em 2002. O governo Lula não era de esquerda, mas não porque os petistas e seus principais aliados(PSB, PDT, e PCdoB) assim o quisessem, e sim pelo fato da esquerda não possuir condições de disputar com um discurso socialista, a hegemonia na sociedade. Na conjuntura atual, a esquerda precisa se aliar ao centro e até mesmo a centro-direita, para promover uma política capaz de superar o modelo neo-liberal e assim resgatar o nacional-desenvolvimentismo.

O governo Lula não era neo-liberal, e sim um governo de centro-esquerda moderado, que possuia erros, mas promoveu a redução da miséria em nosso país, criando empregos. Esse governo deteve o fetichismo privatista da era FHC, tanto que não privatizou o Banco do Brasil e a Caixa Economica Federal, como pretendia fazer o senhor Maílson da Nóbrega, quando ministro da Fazenda do governo FHC. Não privatizou Furnas, Eletrobras, e os Correios, como os tucanos e seus aliados do DEM - Democratas, defendem abertamente.

E mais, o governo Lula ampliou a participação do Estado na economia, não somente através do monopólio estatal sobre o Pré-Sal, mas também com uma fiscalização mais rigorosa no setor de mineração. Essa ampliação se manteve no governo Dilma, e vem promovendo o ataque raivoso dos neo-liberais contra o governo. Vejam o que diz o professor Cândido Mendes: "Há, sim, confronto radical entre os dois regimes, ao contrário do que diz, e os tucanos abriram o país à globalização privatista hegemônica, enquanto o petismo vai hoje, com a melhoria social do país, à recuperação do poder do Estado, numa efetiva economia de desenvolvimento sustentável." (Cândido Mendes; em Para Onde Não Vamos)

O governo Dilma deu continuidade as políticas do governo anterior, sendo portanto, um governo de centro-esquerda moderado, de caráter nacional-desenvolvimentista e social-liberal, com alguma influência do pensamento social-democrata.

O PT é um partido socialista, seu objetivo é superar o capitalismo pela via processual, construindo uma sociedade socialista e democrática. Isso não se faz da noite para o dia, precisa-se primeiro disputar a hegemonia na sociedade, respeitando a realidade da conjuntura atual, que não permite que essa hegemonia seja disputada com um projeto socialista. O governo Dilma também tem erros, merece receber críticas e até mesmo sofrer uma oposição lúcida e construtiva por parte de setores mais radicais da esquerda, o que infelizmente não vem ocorrendo. O PSOL, insiste em promover um tipo de oposição desleal, classificando o governo como neo-liberal. É um erro, tão grave quanto os erros do governo Dilma, que os psolistas combatem com vigor.

Abaixo, texto publicado quando o partido fez 30 anos, em 10/02/2010.


O PT e as esperanças trinta anos depois
Tarso Genro e Vinícius Wu

Ao completar 30 anos de existência, o PT já pode orgulhar-se de ter escrito uma das mais importantes páginas da história recente da esquerda mundial. Basta analisarmos (e compararmos) a trajetória dos demais movimentos e agremiações partidárias que, mundo afora, mobilizavam energias, esperanças e utopias à época da fundação do PT, para atestarmos esta afirmação.

Muros e certezas se dissolveram ao longo destas três décadas, e nosso partido, ainda que atravessado por inúmeras contradições, permanece a encarnar, com vigor, o sonho de um Brasil democrático e socialmente justo. Apenas para efeito de comparação tomemos como exemplo três importantes experiências que, nos idos de 1980, animavam os debates da esquerda no Brasil e no mundo: as guerrilhas centro-americanas; a URSS; e o Solidariedade da Polônia.

No primeiro caso, a derrota sofrida por alguns dos agrupamentos armados teve um sabor amargo para a esquerda latino-americana. O cerco à Nicarágua e a derrota da revolução sandinista, por exemplo, lançou a FSLN numa complexa trajetória de deformação moral-ideológica, que resultou na adesão de parte daquele movimento a uma prática política que parece afastada dos ideais democráticos de justiça e igualdade. Outras experiências também caminharam em um sentido parecido. De toda aquela energia renovadora e sonhos transformadores, que impulsionaram sacrifícios inenarráveis, pouco restou de suas idéias originárias.

O caso da URSS é mais conhecido. Ainda nos anos oitenta, muitos partidos de esquerda, mundo afora, identificavam naquele país a "pátria mãe" do socialismo. Os regimes do leste não resistiram à estagnação econômica e aos anseios de liberdade e participação democrática que evoluíram com uma força irresistível nos últimos anos da década de oitenta.

O próprio progresso econômico e cultural proporcionado por aquelas revoluções gerou grupos sociais que passaram a exigir mais progresso e um sistema democrático de participação política. Regimes que pareciam eternos ruíram como um castelo de cartas e os acontecimentos posteriores reforçaram a leitura de que aqueles regimes haviam, desde muito tempo, se distanciado dos ideais humanistas e solidários do século das luzes e da esquerda moderna.

Já o sindicato Solidariedade, que parecia encarnar o sonho de uma profunda renovação democrática das utopias do século XX, logo abandonou qualquer compromisso com a justiça social e com os valores de esquerda, transformando-se em fiador de uma restauração capitalista selvagem, que se tornou corrente nas transições dos regimes do leste. Lech Walessa, hoje, é apenas uma figura melancólica de um passado recente, mas sem nenhum apelo político no presente.

Aliás, caberia a comparação entre as trajetórias de Lula, Walessa e Gorbachev. Os dois últimos deixaram inscritos seus nomes na história do século XX, sem dúvida. Mas é Lula quem desponta como referência de uma esquerda aberta e renovada em construção neste início de século.

O Presidente Lula e o PT realizam, hoje, a mais bem sucedida experiência de governo da esquerda contemporânea. Ao combinar desenvolvimento econômico, inclusão social e democracia, oferecemos um exemplo ao mundo, através da renovação da esperança em um mundo pós-neoliberal. Está em curso, na verdade, uma verdadeira Revolução Democrática no Brasil. Do seu aprofundamento poderá emergir um país justo, solidário e sujeito ativo na construção de uma nova ordem global mais equilibrada e pacificada.

A humanidade sempre foi movida, no que de mais nobre ela gerou em termos culturais e econômicos, por sonhos e esperanças. As utopias generosas, que não são perigosas se experimentadas na democracia, tem a capacidade de gerar novos desafios à inteligência. O PT é um partido que contribui com o ressurgimento da esperança e da solidariedade neste inicio de século.

GRANDEZAS E LIMITES DO MANIFESTO COMUNISTA



GRANDEZAS E LIMITES DO MANIFESTO COMUNISTA
Carlos Nelson Coutinho*

A extraordinária eficácia do Manifesto resulta da justeza essencial com que conceitua o impacto da emergência do capitalismo. Seus limites no entanto são históricos e dizem respeito basicamente à teoria política que fundou.

O Manifesto do Partido Comunista é, certamente, o texto mais conhecido e lido de Marx e Engels. Escrito em final de 1847 e publicado no início de 1848, ele foi provavelmente redigido apenas por Marx, que se utilizou para isso de um esboço preliminar elaborado por Engels, intitulado Princípios do comunismo. O texto lhes fôra encomendado pela Liga dos Comunistas (antes chamada de Liga dos Justos), um pequeno agrupamento de exilados alemães com sede em Londres. Quando Marx e Engels morreram, respectivamente em 1883 e em 1895, o Manifesto não só já conhecera inúmeras edições em alemão (a língua em que fôra escrito), mas também havia sido traduzido em vários outros idiomas. Essas reedições e traduções quase sempre traziam novos prefácios dos autores (sobretudo de Engels, que viveu 12 anos mais do que Marx), em muitos dos quais - sobretudo nos mais tardios - já se esboçavam autocríticas quanto a algumas de suas afirmações.

No momento em que o Manifesto foi escrito, Marx e Engels já tinham elaborado as linhas essenciais de sua ontologia do ser social (à qual deram o nome de "materialismo histórico"), cujas primeiras expressões sistemáticas se encontram em A ideologia alemã e nas Teses sobre Feuerbach (de 1845), bem como na Miséria da filosofia (de 1847). Em relação a esses textos fundadores, o Manifesto introduz, porém, uma significativa novidade: é nele que, pela primeira vez, Marx e Engels expressam de modo sistemático os fundamentos essenciais de sua teoria política, ou, mais precisamente, da teoria histórico-materialista do Estado e da revolução. Quem leu o Manifesto sabe que não é correto dizer - como, entre outros, Norberto Bobbio o fez nos anos 70 - que não existe em Marx uma teoria política.

A extraordinária eficácia do Manifesto - um dos textos teórico-políticos certamente mais influentes em toda a história - resulta, para além dos seus inegáveis méritos literários, da justeza essencial das grandes linhas com que conceitua o impacto que a emergência e a consolidação do capitalismo provocaram na evolução da humanidade. O que hoje conhecemos como "modernidade" tem suas principais determinações registradas nos dois primeiros capítulos do Manifesto, sugestivamente intitulados "Burgueses e proletários" e "Proletários e comunistas". Todos os traços que, pelo menos desde os iluministas, vinham sendo apontados como distintivos da era moderna (em contraposição à Antigüidade clássica e ao mundo feudal) encontram no Manifesto uma exemplar síntese histórico-dialética, à qual nem mesmo os mais ferrenhos adversários do marxismo têm recusado - quando dispõem de um mínimo de isenção - o qualificativo de "genial".

Surpreende no texto do Manifesto, escrito há 150 anos, a atualidade com que, por exemplo, seus autores descrevem os fundamentos do modo de produção e da formação econômico-social capitalistas, sob cujo domínio continuamos a viver ainda hoje. Embora sejam críticos radicais do capitalismo, Marx e Engels não são românticos: têm clara consciência não só da irreversibilidade, mas também do caráter liberador e revolucionário das novas formas de sociabilidade que o capitalismo vinha introduzindo - e, de certo modo, continuou a introduzir - no modo de relacionamento e de interação entre os homens. Um famoso livro de Marshall Berman tornou ainda mais conhecida a expressão "tudo o que é sólido desmancha no ar", com a qual o Manifesto busca resumir o sentido das transformações que o capitalismo introduzia no mundo, gerando - com sua carga fortemente emancipatória, mas também com suas dilaceradoras contradições e impasses - o que hoje conhecemos como "modernidade".

Entre as novidades trazidas pelo capitalismo, e não em último lugar, Marx e Engels registram o fenômeno que hoje recebe o nome de "globalização": "Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias - lê-se no Manifesto -, desenvolvem-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isso se refere tanto à produção material como à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se propriedade comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; das inúmeras literaturas nacionais e locais nasce uma literatura universal". É dessa globalização do capital que Marx e Engels retiram a justa percepção de que os opositores do capitalismo - os trabalhadores - devem também se organizar em nível internacional.

Ao mesmo tempo em que descreve premonitoriamente características que o capitalismo só viria a manifestar plenamente nos dias de hoje, o Manifesto também é atualíssimo ao apontar as contradições que essa formação econômico-social (e cultural) traz consigo. "O sistema burguês - observam Marx e Engels - tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio. De que maneira consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande parte das forças produtivas; de outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que leva isso? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios de evitá-las". O diagnóstico é, também ele, atualíssimo: "As armas que a burguesia utilizou para abater o feudalismo voltam-se hoje contra a própria burguesia". Ou seja: as promessas de emancipação humana trazidas pela modernidade capitalista (entre as quais as promessas de democratização e de universalização da cidadania) exigem, para sua plena realização, a superação do próprio capitalismo.

E o Manifesto é também de grande atualidade quando indica os sujeitos capazes de encaminhar essa superação: "A burguesia, porém, não forjou somente as armas que lhe darão morte; produziu também os homens que manejarão essas armas - os operários modernos, os proletários". É no mundo do trabalho, no mundo dos que geram as riquezas que o capital expropria, que se gestam as principais forças objetiva e subjetivamente interessadas na construção de uma nova ordem social, que Marx e Engels concebem como capaz de recolher os momentos emancipatórios trazidos pela modernidade capitalista mas, ao mesmo tempo, de superar suas contradições e impasses. Escrevendo em 1848, nossos dois autores não podiam prever a grande diversificação que iria envolver, nos 150 anos subseqüentes, o universo dos que vivem do trabalho e, por conseguinte, dos que geram mais-valia para o capital. Por isso, ainda identificavam sumariamente os trabalhadores com a classe operária fabril, uma identificação que já não se sustenta hoje. Contudo, ao mostrar que é no mundo dos que trabalham - e que são explorados pelo capital - que se gesta o portador material da superação do capitalismo, o Manifesto demonstra mais uma vez a sua atualidade, a sua sintonia com o presente.

Malgrado isso, é preciso dizer claramente que quem quer ser marxista hoje não pode repetir mecanicamente o que é dito no Manifesto. Lukács observou, já em 1923, que a ortodoxia marxista se refere exclusivamente ao método, o que implicaria, segundo ele, a possibilidade (ou mesmo a necessidade) de se deixar de lado, ou mesmo de se recusar, muitas das afirmações concretas de Marx e Engels. Essa relativização significa que, ao lado de sua extraordinária grandeza e de sua surpreendente atualidade, o Manifesto também apresenta limites.

Tais limites decorrem, antes de mais nada, do fato de que Marx e Engels adotaram metodologicamente, nesse texto, um ponto de vista abstrato: eles se concentraram nos traços mais gerais do modo de produção capitalista, sem analisar suas manifestações concretas em diferentes formações econômico-sociais. Tal ponto de vista, ao mesmo tempo em que lhes permitiu a captação das determinações essenciais do capitalismo, possibilitou-lhes ainda emprestar ao Manifesto aquela dimensão de época que faz a sua grandeza e que talvez seja a razão maior de sua permanente eficácia. Mas também lhes impediu de levar em conta mediações concretas que tornariam mais ricas, como irá ocorrer em textos posteriores, as suas análises. (Nesse sentido, bastaria comparar o relativo esquematismo da definição do Estado no Manifesto com a riqueza concreta da análise do fenômeno político no 18 Brumário, escrito por Marx apenas três anos depois.) Contudo, os limites da obra clássica de 1848 são, sobretudo, limites históricos: escrevendo em 1848, Marx e Engels não podiam elevar a conceito inúmeras determinações que o desenvolvimento histórico sucessivo introduziria no ser social, alterando assim os termos com que eles definem, no Manifesto, alguns complexos problemáticos tão significativos - para a teoria política que fundaram - como a luta de classes, o Estado e a revolução.

Depois de afirmar que "a época da burguesia caracterizou-se por ter simplificado os antagonismos de classe" (uma afirmação que é relativizada no 18 Brumário e em outros textos posteriores), Marx e Engels afirmam no Manifesto: "O poder político do Estado moderno não é mais do que um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia. [...] O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra". Essa enfática afirmação de que o poder do Estado capitalista se impõe essencialmente pela coerção (ou "opressão") resulta da constatação de que a sociedade burguesa, ao contrário das anteriores sociedades de classe, é incapaz de "exercer o seu domínio porque não pode assegurar a existência do seu escravo", isto é, do trabalhador assalariado. A lei do movimento do capital, segundo os autores do Manifesto, conduziria o proletariado à pauperização absoluta. Isso, ao mesmo tempo que imporia ao Estado burguês a necessidade de uma coerção permanente sobre os trabalhadores, levaria a luta de classes a assumir a forma da guerra civil: "Esboçando em linhas gerais as fases de desenvolvimento do proletariado - diz ainda o Manifesto -, descrevemos a história da guerra civil, mais ou menos oculta, que lavra na sociedade atual, e que durará até a hora em que essa guerra explodir numa revolução aberta e o proletariado estabelecer sua dominação pela derrubada violenta da burguesia".

Expressa-se assim, no Manifesto, uma teoria política centrada essencialmente em três pontos: 1) numa noção "restrita" do Estado, segundo a qual esse seria o "comitê executivo" da classe dominante, que se vale essencialmente da coerção (ou da "opressão") para cumprir suas funções; 2) numa concepção da luta de classes como conflito bipolar e "simplificado" entre burgueses e proletários, que se expressa como "uma guerra civil mais ou menos oculta", que levará necessariamente a uma "explosão"; 3) numa visão da revolução socialista como "revolução permanente", que tem seu momento resolutivo na constituição de um contrapoder da classe operária, que deve "derrubar violentamente" o poder burguês e substituí-lo por um outro poder (que, pouco tempo depois do Manifesto, Marx chamará - recolhendo um termo de Auguste Blanqui - de "ditadura do proletariado").

Um marxista que compreenda a "ortodoxia" não como uma reverência fetichista aos textos, mas como o empenho em ser metodologicamente fiel ao movimento histórico-dinâmico do real, não pode repetir essas definições como sendo plenamente válidas hoje. Novos fenômenos surgiram, sobretudo a partir do último terço do século XIX, os quais - ao introduzir novas determinações no ser social do capitalismo - tornaram obsoletas muitas das características presentes em tais definições.

Por um lado, a progressiva passagem da exploração do trabalho através da mais-valia absoluta (da redução do salário e do aumento da jornada de trabalho) para a exploração através da mais-valia relativa (do aumento da produtividade) - uma passagem amplamente teorizada por Marx no Livro 1 de O Capital, publicado em 1867 - alterou as condições em que se trava a luta de classes: ela não mais ocorre num quadro em que a acumulação do capital leva necessariamente ao empobrecimento absoluto do trabalhador, mas torna possível um aumento simultâneo de salários e lucros; com isso, a luta de classes pode assumir formas mais institucionalizadas, que não podem ser equiparadas a uma "guerra civil". E, por outro lado, em estreita correlação com essa alteração infra-estrutural, ocorreu uma crescente "socialização da política" (conquista do sufrágio universal, criação de sindicatos e partidos operários de massa), a qual forçou o Estado capitalista a se abrir para outros interesses que não os da classe dominante, com o que - sem deixar de ser um Estado de classe - ele não mais pode ser definido como um mero "comitê executivo" da burguesia. Ao lado da coerção, gestaram-se também mecanismos de tipo consensual. Tudo isso, finalmente, motivou uma nova concepção da revolução socialista: essa pode agora ser imaginada não mais sob a forma de uma "explosão violenta" concentrada num curto lapso de tempo, como ainda o faz o Manifesto, mas sim de um movimento processual, de longa duração, que opera nos espaços progressivamente abertos pelas instituições liberal-democráticas (as quais, de resto, resultam em grande parte das lutas dos trabalhadores).

Embora indicações no sentido de revisar a teoria para adequá-la a esse novo contexto histórico já estejam presentes nos próprios Marx e Engels depois do Manifesto (como se pode ver, entre outros escritos, nos prefácios mais tardios de ambos às reedições e traduções do texto de 1848), o fato é que uma nova teoria marxista do Estado e da revolução só viria à luz, de modo sistemático, nos célebres Cadernos do cárcere de Antonio Gramsci. Com base numa correta visão historicista do método de Marx, Gramsci percebeu a essência dos limites históricos dos seus mestres (e, em conseqüência, do Manifesto). Numa nota em que fala da teoria do Estado em Hegel, diz Gramsci: "Sua concepção [de Hegel] da associação só pode ser ainda vaga e primitiva, situada entre o político e o econômico, de acordo com a experiência da época, que era ainda restrita e fornecia um único exemplo completo de organização, a organização "corporativa"[...] Marx não podia ter experiências históricas superiores às de Hegel (pelo menos muito superiores), mas tinha o sentido das massas, graças à sua atividade jornalística e de agitação. O conceito de organização em Marx permanece ainda preso aos seguintes elementos: organizações profissionais, clubes jacobinos, conspirações secretas de pequenos grupos [como a Liga dos Comunistas], organização jornalística".

Assim, ao mesmo tempo que indica os limites históricos de Marx e Engels, Gramsci recolhe o essencial do ensinamento deles: o autor dos Cadernos não abandona as teorias de Estado e revolução socialista elaboradas por esses autores, inclusive no Manifesto, mas as enriquece com novas determinações, recolhidas do movimento histórico que ele teve a possibilidade de vivenciar. A revisão do marxismo empreendida por Gramsci - que coloca as idéias de Marx e Engels em plena sintonia com o nosso tempo - nos ensina uma lição: reler o Manifesto, de um ponto de vista marxista, significa relê-lo de modo crítico, relativizá-lo, situá-lo historicamente.

Essa necessária relativização histórica, contudo, não nos deve fazer esquecer que poucos textos resistiram ao tempo tanto quanto o Manifesto do Partido Comunista. É surpreendente sua atualidade, sua capacidade de nos falar - e de nos ensinar - sobre o nosso mundo de hoje. Além dos traços do capitalismo que já mencionamos antes, é também extremamente atual, por exemplo, a concepção de comunismo que o Manifesto nos sugere: a de uma organização social na qual "o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos". É uma frase densa de significado, que fornece aos marxistas de hoje, ao mesmo tempo, critérios para avaliar as razões do fracasso do "socialismo real", para recordar a necessidade de recolher o que de melhor existe na tradição liberal e democrática e, sobretudo, para sugerir um dos traços essenciais do comunismo, que continua sendo - e talvez hoje mais do que nunca - a única alternativa racional e sensata à crescente barbárie capitalista.

* Carlos Nelson Coutinho é professor titular de Teoria Política na UFRJ