"Uma esquerda reformada não pode sair da tradição socialista, que, no atual período, significa concretamente opor a defesa dos direitos ao sucateamento dos direitos. Significa defender a globalização dos direitos sociais em conjunto com a globalização do capital. Defender a organização do consumo sustentável, combinada com a regulação social do mercado. Significa defender a solidariedade aos ex-países coloniais e a sua gente imigrada, opondo-se ao racismo e à xenofobia. Significa defender a estabilidade da democracia parlamentar e das instituições republicanas, combinadas com a participação direta e virtual da cidadania. Uma esquerda renovada defenderá políticas de desenvolvimento regional que partam da valorização da bases produtivas locais e da valorização das suas respectivas culturas. A esquerda renovada deve, enfim, repor no discurso político e nas ações de governo, a agenda do combate às desigualdades, tão cara à tradição socialista, social-democrata ou meramente republicano-democrática, que o neoliberalismo conseguiu arquivar."
(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")
(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Abaixo a ditadura castrista em Cuba
O cientista político Armando Boito, professor da Unicamp e importante nome da intelectualidade marxista, afirmou o seguinte em entrevista ao Jornal da Unicamp, edição nº 307:
"Quanto à questão da democracia, o que eu posso dizer é que o socialismo exige democracia, mas não a democracia parlamentar, comandada pela burocracia do Estado capitalista, e corrompida pelo poder do dinheiro. A democracia da qual o socialismo necessita é uma democracia de novo tipo que integre, de modo efetivo, sistemático e com direito à divergência e discussão, os trabalhadores, seus partidos e suas organizações de massa no processo de definição das grandes decisões políticas, econômicas e culturais."
Nas palavras de Armando Boito, "o socialismo exige democracia(...)uma democracia de novo tipo que integre, de modo efetivo, sistemático e com direito à divergência e discussão, os trabalhadores, seus partidos e suas organizações de massa no processo de definição das grandes decisões políticas, econômicas e culturais." Infelizmente a maior parte da esquerda parece não pensar assim, parece que não aprendeu nenhuma lição com o fracasso do chamado "socialismo real", uma vez que continua apoiando a ditadura castrista em Cuba, uma ditadura burocratica herdeira em todos os sentidos do finado "socialismo real".
Esses setores da esquerda vivem confundindo o apoio a Revolução Cubana com uma visão acritica, beata e de sacristia, desse processo revolucionário, que impede que sejam reconhecidos os erros, e que tais erros sejam criticados no intuito de serem corrigidos. Fidel Castro baseou seu regime no mesmo modelo autoritario que existia na antiga URSS e no Leste Europeu, ou seja, no leninismo(bolchevismo). E esse regime continua de pé com Raúl Castro, apesar das recentes reformas. Mas os principais setores da esquerda continuam endeusando Fidel e seu irmão, insistindo na defesa de algo que a história já comprovou não ter sucesso.
O regime castrista é tão absurdo que chegou a perseguir os homossexuais no passado. Nas décadas de 60 e 70, declarar a homossexualidade em Cuba tornava a vida muito difícil para uma pessoa. Homossexualidade, assim como religião, era considerada "anti-revolucionária". Alguns homossexuais foram mandados para campos de trabalho forçado e outros fugiram do país. Felizmente isso mudou e hoje existe tolerância a homossexualidade por parte das autoridades comunistas de Cuba, assim como existe a liberdade religiosa. Entretanto continua existindo o regime de partido unico, a prisão de opositores do regime e até mesmo execuções sumárias.
O historiador marxista Jacob Gorender, um dos mais importantes intelectuais da esquerda brasileira, faz uma critica feroz ao leninismo(bolchevismo) em seu célebre "Marxismo sem utopia".
"O que deixei claro é que não se deve ter um modelo como o do Partido Bolchevique: uma direção de revolucionários profissionais apoiada numa rede de células, organizações e pessoas que não são profissionais, que estão na vida comum, e que se tornam militantes do partido. Esta concepção altamente centralizadora é indissociável do partido único, do autoritarismo e do arbítrio, como ocorreu na União Soviética. O partido único ditatorial já estava implícito na lógica do Partido Bolchevique desde o momento em que ele se propôs a tomada do poder. Rosa Luxemburgo percebeu isso, embora o dissesse de maneira muito simplificada. Da minha parte, militei em partidos inspirados por este modelo e vivi suas contradições.
O modelo bolchevique incorporou, em sua visão da ação política, um centralismo enorme, bem como a idéia de que poderia dirigir sozinho a sociedade. Tomemos, por exemplo, a questão da dissolução da assembléia constituinte na Revolução Russa: o problema não foi tê-la dissolvido, mas não se ter nenhuma proposta democrática alternativa. Os sovietes, desde a tomada do poder, passaram a ser uma correia de transmissão do partido e terminaram esvaziados. Em seguida, os sindicatos e as outras organizações de massa foram se tornando o que Lenin tinha em vista: correias de transmissão do partido único. Quando, em 1921, as tendências foram proibidas dentro do partido bolchevique, a idéia era de que isto seria temporário; mas o temporário se tornou permanente. Essas coisas práticas, mais do que as declarações, formam aquilo que chamo de modelo bolchevique. É isto que deve ser evitado."
(Jacob Gorender, em Teoria e Debate nº 43, onde fala sobre os temas abordados em "Marxismo sem utopia")
Ele também nos lembra que aquilo que existia no Leste Europeu, o chamado "socialismo real", nada tinha em comum com o verdadeiro marxismo.
"O chamado "socialismo real" não somente se desviou do marxismo, como se opôs frontalmente a ele." (Jacob Gorender, em Teoria e Debate nº 16)
E também deixa claro sua oposição ao regime de partido unico em Cuba.
"O regime ideal para Cuba não é o do partido único, como não o é para nenhum país socialista." (Jacob Gorender, em Teoria e Debate nº 16)
Assim como Armando Boito e Jacob Gorender, também acredito que só pode existir socialismo com democracia. Por isso me oponho aqueles que defendem acriticamente o regime castrista, confundindo a defesa da Revolução Cubana com a defesa do regime liderado por Fidel e seu irmão, Raúl Castro.
Sou defensor de um socialismo renovado, um socialismo com liberdade e democracia, por isso me oponho a ditadura castrista em Cuba. Acredito que a esquerda precisa romper com a herança autoritaria do bolchevismo.
A esquerda precisa criticar o autoritarismo castrista, assim como também precisa defender a Revolução Cubana, defender o socialismo. Deve apoiar com todo empenho a Revolução Cubana, a sua luta contra o imperialismo, as suas conquistas sociais, sem contudo confundir isso com apoio a ditadura de partido unico existente em Cuba. Deve lutar por uma renovação do socialismo cubano, uma renovação que promova o estabelecimento de um Estado democrático e socialista de direito, com pluripartidarismo, sindicatos, imprensa e eleições livres, maior liberdade religiosa, etc. Cuba precisa se tornar uma democracia socialista, assim como Vietnã, Laos, China, e Coréia do Norte também precisam.
Para encerrar esse assunto sobre Cuba, vejam o que diz o cientista político Armando Boito, em entrevista ao Jornal da Unicamp, edição nº 307:
"Cuba, para mim, não é um país socialista. Trata-se de um poder popular, antiimperialista, cercado pelo imperialismo estadunidense e que merece a solidariedade ativa dos povos da América Latina. Mas o seu Estado, marcadamente burocrático, e seu regime político, de partido único, são indicadores seguros de que os trabalhadores não controlam a política e a economia do país.
Não há, no nível da economia, a unidade entre o produtor direto e os meios de produção, unidade que só pode haver se houver, no nível político, uma democracia de novo tipo(...). Para haver gestão coletiva e democrática da economia pelos próprios trabalhadores, isto é, para haver uma organização socialista da economia, é preciso que essa democracia de novo tipo funcione. Uma coisa não vai sem a outra: a socialização da economia exige a socialização do poder político.
Alguns companheiros afirmam que se Cuba abrisse o seu sistema partidário cairia nas mãos da burguesia reacionária exilada em Miami. Esse é de fato um perigo – que, de resto, não deixa de existir com o sistema de partido único."
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