"Uma esquerda reformada não pode sair da tradição socialista, que, no atual período, significa concretamente opor a defesa dos direitos ao sucateamento dos direitos. Significa defender a globalização dos direitos sociais em conjunto com a globalização do capital. Defender a organização do consumo sustentável, combinada com a regulação social do mercado. Significa defender a solidariedade aos ex-países coloniais e a sua gente imigrada, opondo-se ao racismo e à xenofobia. Significa defender a estabilidade da democracia parlamentar e das instituições republicanas, combinadas com a participação direta e virtual da cidadania. Uma esquerda renovada defenderá políticas de desenvolvimento regional que partam da valorização da bases produtivas locais e da valorização das suas respectivas culturas. A esquerda renovada deve, enfim, repor no discurso político e nas ações de governo, a agenda do combate às desigualdades, tão cara à tradição socialista, social-democrata ou meramente republicano-democrática, que o neoliberalismo conseguiu arquivar."

(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Os socialistas do PT - Partido dos Trabalhadores



O PT - Partido dos Trabalhadores, nunca foi comunista. Apesar de fortemente influenciado pelo marxismo, o partido nunca se declarou marxista, defendendo um socialismo plural que reuniu várias vertentes do marxismo, com setores da esquerda católica(Teologia da Libertação), ecologistas, humanistas, e sindicalistas compromissados com a luta da classe trabalhadora. O PT sempre garantiu o pleno direito de tendências permanentes se organizarem em seu interior, o que garantiu essa pluralidade.

Fundado em 10/02/1980, o partido nasceu criticando o autoritarismo e o burocratismo dos regimes socialistas na URSS e no Leste Europeu, deixando claro que sem democracia não pode existir um socialismo verdadeiro. Como disse o deputado federal Emiliano José: "Logo ao nascer, o PT disse a que vinha: a luta pelo socialismo era indissociável da luta pela democracia. Não mais a ditadura do proletariado. Não mais o sacrifício das liberdades em favor de conquistas sociais." (Emiliano José; em "O PT e o Brasil")


No princípio, o PT era caracterizado por um certo sectarismo, limitando suas alianças aos partidos de esquerda. Mas após as 3 derrotas de Lula, nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998, o partido abandonou esse sectarismo, tornando-se vocacionado para governar o Brasil.

"Depois de muitos tropeços e equívocos, compreendeu que um sonho que se sonha só é apenas um sonho. Chegar ao poder, governar o Brasil exigia amplitude, capacidade de fazer alianças com os diferentes.A revolução deixava de ter data marcada. Não mais a quimera do grande dia da conquista do céu. A transformação do País seria fruto de uma paciente construção cotidiana. Guerra de posição. Não mais o assalto ao Palácio de Inverno. Gramsci assume o lugar antes ocupado por Lênin. As classes trabalhadoras tinham que ser conquistadas e conquistar corações e mentes da sociedade brasileira. As forças do atraso eram muito mais fortes do que pretendia o jovem PT." (Emiliano José; em "O PT e o Brasil")

O PT chegou ao governo com a vitória de Lula em 2002. O governo Lula não era de esquerda, mas não porque os petistas e seus principais aliados(PSB, PDT, e PCdoB) assim o quisessem, e sim pelo fato da esquerda não possuir condições de disputar com um discurso socialista, a hegemonia na sociedade. Na conjuntura atual, a esquerda precisa se aliar ao centro e até mesmo a centro-direita, para promover uma política capaz de superar o modelo neo-liberal e assim resgatar o nacional-desenvolvimentismo.

O governo Lula não era neo-liberal, e sim um governo de centro-esquerda moderado, que possuia erros, mas promoveu a redução da miséria em nosso país, criando empregos. Esse governo deteve o fetichismo privatista da era FHC, tanto que não privatizou o Banco do Brasil e a Caixa Economica Federal, como pretendia fazer o senhor Maílson da Nóbrega, quando ministro da Fazenda do governo FHC. Não privatizou Furnas, Eletrobras, e os Correios, como os tucanos e seus aliados do DEM - Democratas, defendem abertamente.

E mais, o governo Lula ampliou a participação do Estado na economia, não somente através do monopólio estatal sobre o Pré-Sal, mas também com uma fiscalização mais rigorosa no setor de mineração. Essa ampliação se manteve no governo Dilma, e vem promovendo o ataque raivoso dos neo-liberais contra o governo. Vejam o que diz o professor Cândido Mendes: "Há, sim, confronto radical entre os dois regimes, ao contrário do que diz, e os tucanos abriram o país à globalização privatista hegemônica, enquanto o petismo vai hoje, com a melhoria social do país, à recuperação do poder do Estado, numa efetiva economia de desenvolvimento sustentável." (Cândido Mendes; em Para Onde Não Vamos)

O governo Dilma deu continuidade as políticas do governo anterior, sendo portanto, um governo de centro-esquerda moderado, de caráter nacional-desenvolvimentista e social-liberal, com alguma influência do pensamento social-democrata.

O PT é um partido socialista, seu objetivo é superar o capitalismo pela via processual, construindo uma sociedade socialista e democrática. Isso não se faz da noite para o dia, precisa-se primeiro disputar a hegemonia na sociedade, respeitando a realidade da conjuntura atual, que não permite que essa hegemonia seja disputada com um projeto socialista. O governo Dilma também tem erros, merece receber críticas e até mesmo sofrer uma oposição lúcida e construtiva por parte de setores mais radicais da esquerda, o que infelizmente não vem ocorrendo. O PSOL, insiste em promover um tipo de oposição desleal, classificando o governo como neo-liberal. É um erro, tão grave quanto os erros do governo Dilma, que os psolistas combatem com vigor.

Abaixo, texto publicado quando o partido fez 30 anos, em 10/02/2010.


O PT e as esperanças trinta anos depois
Tarso Genro e Vinícius Wu

Ao completar 30 anos de existência, o PT já pode orgulhar-se de ter escrito uma das mais importantes páginas da história recente da esquerda mundial. Basta analisarmos (e compararmos) a trajetória dos demais movimentos e agremiações partidárias que, mundo afora, mobilizavam energias, esperanças e utopias à época da fundação do PT, para atestarmos esta afirmação.

Muros e certezas se dissolveram ao longo destas três décadas, e nosso partido, ainda que atravessado por inúmeras contradições, permanece a encarnar, com vigor, o sonho de um Brasil democrático e socialmente justo. Apenas para efeito de comparação tomemos como exemplo três importantes experiências que, nos idos de 1980, animavam os debates da esquerda no Brasil e no mundo: as guerrilhas centro-americanas; a URSS; e o Solidariedade da Polônia.

No primeiro caso, a derrota sofrida por alguns dos agrupamentos armados teve um sabor amargo para a esquerda latino-americana. O cerco à Nicarágua e a derrota da revolução sandinista, por exemplo, lançou a FSLN numa complexa trajetória de deformação moral-ideológica, que resultou na adesão de parte daquele movimento a uma prática política que parece afastada dos ideais democráticos de justiça e igualdade. Outras experiências também caminharam em um sentido parecido. De toda aquela energia renovadora e sonhos transformadores, que impulsionaram sacrifícios inenarráveis, pouco restou de suas idéias originárias.

O caso da URSS é mais conhecido. Ainda nos anos oitenta, muitos partidos de esquerda, mundo afora, identificavam naquele país a "pátria mãe" do socialismo. Os regimes do leste não resistiram à estagnação econômica e aos anseios de liberdade e participação democrática que evoluíram com uma força irresistível nos últimos anos da década de oitenta.

O próprio progresso econômico e cultural proporcionado por aquelas revoluções gerou grupos sociais que passaram a exigir mais progresso e um sistema democrático de participação política. Regimes que pareciam eternos ruíram como um castelo de cartas e os acontecimentos posteriores reforçaram a leitura de que aqueles regimes haviam, desde muito tempo, se distanciado dos ideais humanistas e solidários do século das luzes e da esquerda moderna.

Já o sindicato Solidariedade, que parecia encarnar o sonho de uma profunda renovação democrática das utopias do século XX, logo abandonou qualquer compromisso com a justiça social e com os valores de esquerda, transformando-se em fiador de uma restauração capitalista selvagem, que se tornou corrente nas transições dos regimes do leste. Lech Walessa, hoje, é apenas uma figura melancólica de um passado recente, mas sem nenhum apelo político no presente.

Aliás, caberia a comparação entre as trajetórias de Lula, Walessa e Gorbachev. Os dois últimos deixaram inscritos seus nomes na história do século XX, sem dúvida. Mas é Lula quem desponta como referência de uma esquerda aberta e renovada em construção neste início de século.

O Presidente Lula e o PT realizam, hoje, a mais bem sucedida experiência de governo da esquerda contemporânea. Ao combinar desenvolvimento econômico, inclusão social e democracia, oferecemos um exemplo ao mundo, através da renovação da esperança em um mundo pós-neoliberal. Está em curso, na verdade, uma verdadeira Revolução Democrática no Brasil. Do seu aprofundamento poderá emergir um país justo, solidário e sujeito ativo na construção de uma nova ordem global mais equilibrada e pacificada.

A humanidade sempre foi movida, no que de mais nobre ela gerou em termos culturais e econômicos, por sonhos e esperanças. As utopias generosas, que não são perigosas se experimentadas na democracia, tem a capacidade de gerar novos desafios à inteligência. O PT é um partido que contribui com o ressurgimento da esperança e da solidariedade neste inicio de século.

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