"Uma esquerda reformada não pode sair da tradição socialista, que, no atual período, significa concretamente opor a defesa dos direitos ao sucateamento dos direitos. Significa defender a globalização dos direitos sociais em conjunto com a globalização do capital. Defender a organização do consumo sustentável, combinada com a regulação social do mercado. Significa defender a solidariedade aos ex-países coloniais e a sua gente imigrada, opondo-se ao racismo e à xenofobia. Significa defender a estabilidade da democracia parlamentar e das instituições republicanas, combinadas com a participação direta e virtual da cidadania. Uma esquerda renovada defenderá políticas de desenvolvimento regional que partam da valorização da bases produtivas locais e da valorização das suas respectivas culturas. A esquerda renovada deve, enfim, repor no discurso político e nas ações de governo, a agenda do combate às desigualdades, tão cara à tradição socialista, social-democrata ou meramente republicano-democrática, que o neoliberalismo conseguiu arquivar."

(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Socialismo do Século XXI



A Revolução Bolivariana na Venezuela tem sido um exemplo para a esquerda mundial, de que é possível construir o socialismo com liberdade e democracia. Não é por acaso que o Presidente Hugo Chavez tem sido tão perseguido pelos setores conservadores da sociedade venezuelana e pelo imperialismo yankee.

Eu espero que o exemplo venezuelano acabe levando Cuba a promover reformas políticas, no sentido de democratizar o seu modelo de socialismo, rompendo com a herança autoritária do finado "socialismo real".

Não é possível existir um verdadeiro socialismo sem democracia, assim como não pode existir uma democracia plena sem socialismo. A filosofia marxista e a tradição do movimento operário socialista nunca se posicionou em favor de regimes burocraticos de partido unico, muito menos de ditaduras totalitarias. Esses graves desvios que descaracterizaram o socialismo foram resultado dos erros do bolchevismo, motivo pelo qual Rosa Luxemburgo, mesmo apoiando a Revolução Russa de Outubro de 1917, ter criticado Lenin, alertando para as consequências da ausência de uma democracia socialista:

"A liberdade apenas para os partidários do governo, só para os membros de um partido - por numerosos que sejam - não é a liberdade. A liberdade é sempre, pelo menos, a liberdade do que pensa de outra forma (...). Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida acaba em todas as instituições públicas, vegeta e a burocracia se torna o único elemento ativo. [...] Se estabelece assim uma ditadura, mas não a ditadura do proletariado: a ditadura de um punhado de chefes políticos, isto é uma ditadura no sentido burguês [...]". (Rosa Luxemburgo; in "A Revolução Russa") 



A Revolução Bolivariana significa o resgate do socialismo democrático, e vem inspirando os governos democrático-populares de Evo Moralez na Bolivia, e de Rafael Correa no Equador. Espero que também acabe influenciando o Partido Comunista de Cuba em sua necessária política de reformas. Leia o texto abaixo e reflita:



Venezuela fez
(Cristovam Buarque)

Caracas não tem muitos pontos turísticos, mas se um visitante escrever o nome de um deles e mostrar a qualquer pessoa na rua, ela saberá ler. A Venezuela é um território livre do analfabetismo. Este é, hoje, seu maior monumento à história.

Há três anos, a Venezuela tinha 1,5 milhão de adultos analfabetos. Quando o governo iniciou a operação para eliminar o analfabetismo, poucos acreditaram naquela meta. O Presidente Chávez lançou a Operação Robinson I, sob a coordenação do ministro Aristóbulo Istúriz. As Forças Armadas lançaram o programa-piloto em duas cidades, para mostrar que a meta era possível.

Confirmado o sucesso, a operação foi levada ao resto do país. Milhares de agentes visitaram cada casa. O slogan "Eu, sim, posso!" mobilizou todos os venezuelanos. Aos poucos, cada cidade levantou uma bandeira declarando-se "Território Livre de Analfabetismo". Em 28 de outubro, o país declarou-se Território Livre do Analfabetismo, com aval da Unesco.

Tive a honra de ser convidado para a celebração. Em uma tocante solenidade na Assembléia Nacional, ouvi falar emocionada uma recém-alfabetizada. O presidente do Congresso, na presença de uma representante da Unesco, assinou um Ato Congressional, declarando a Venezuela Território Livre de Analfabetismo. À tarde, essa Declaração foi entregue ao Presidente Chávez, diante de milhares de alfabetizadores e recém-alfabetizados. O povo na rua comemorou orgulhoso.

Depois deste 28 de outubro, a Venezuela nunca mais será a mesma. É como se um país, que há cem anos abre poços de petróleo, abrisse o poço de uma energia muito mais poderosa - a capacidade intelectual de seu povo.

Considera-se livre de analfabetismo o país com mais de 95% de seus adultos letrados. Na Venezuela, eles são 99%. Passaram com sucesso pelo programa 1,4 milhão de jovens e adultos, de todas as idades, portadores de deficiências, presos, doentes. Cada alfabetizador recebe, no dia da diplomação, uma coleção de livros simples de leitura, clássicos da literatura, e é inscrito na Fase II do programa, até a conclusão da 4a série. O próprio Presidente cita livros e recomenda leituras em seus discursos.

Testemunhar um país declarar-se livre de analfabetismo é como assistir sua Declaração de Independência. Ver a enorme bandeira - Território Livre do Analfabetismo - era como ver a verdadeira bandeira da Venezuela só agora hasteada. No Brasil, isso seria ainda mais emocionante, porque nossa bandeira só é reconhecida pelos alfabetizados. Além de cores, tem palavras.

Por isso, para um brasileiro, a alegria de assistir o êxito venezuelano é entristecer-se um pouco. Porque se o Programa Brasil Alfabetizado tivesse sido mantido nos moldes de 2003, com uma Secretaria específica para o assunto (nossa operação Robinson) e recursos assegurados, o Brasil estaria pronto para erradicar o analfabetismo antes do final de 2006. É inexplicável que o Presidente Lula tenha preferido extinguir a Secretaria para a Erradicação do Analfabetismo, reduzir o Brasil Alfabetizado a um programa sem metas nem ambições, e chegar a 10 de outubro de 2005 tendo aplicado 10,5% dos recursos previstos para este ano.

Em setembro de 2003, o Presidente Lula recebeu no Teatro Cláudio Santoro, em Brasília, um prêmio da Unesco pelo Brasil Alfabetizado. Naquele momento, imaginei-o em 2007 recebendo o Nobel da Paz por ter erradicado o analfabetismo no Brasil. Durante a solenidade no Teatro Teresa Carreño, em Caracas, percebi que essa chance está mais próxima do presidente Chávez.


Autor: Cristovam Buarque; ex-Governador do Distrito Federal e senador pelo PDT/DF

Fonte: Jornal do Commercio - 04/11/2005

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