Qual Socialismo?
Leandro Konder
A experiência histórica do
movimento socialista, em suas formas cada vez mais variadas, ensina que o
socialismo só avança quando consegue se renovar. E, atualmente, ela já ensina,
também, que a reflexão socialista precisa de interlocutores “externos”, quer
dizer, precisa ─ para renovar-se ─ do diálogo com linhas de pensamento não
comprometidas com os projetos socialistas.
Renovar-se não é uma operação
simples, automática; é um processo nque passa por autocríticas
intranqüilizadoras, freqüentemente dolorosas. Em sociedades politicamente
complexas, os sujeitos empenhados em transformar as relações sociais precisam se
criticar mutuamente, se reeducar, uns aos outros. A eficácia da autocrítica
depende da liberdade de crítica assegurada aos outros. A verdadeira renovação
passa a depender, cada vez mais, do pluralismo.
Por isso, a vanguarda do
pensamento marxista está muito empenhada, hoje, numa revalorização do
pluralismo. E os marxistas de vanguarda, na Itália, já se deram conta da extrema
importância de um interlocutor como Noberto Bobbio.
Bobbio, pensador
político, professor de filosofia do direito, é um homem de imensa cultura e
estupenda honestidade intelectual. É um liberal que estudou Marx, conhece os
meandros do pensamento marxista e não se sente nem um pouco constrangido em
acolher tudo o que nele lhe parece bom. É exatamente essa abertura em face de
Marx que lhe permite, por outro lado, questionar de maneira bastante
despreconceituosa e fecunda uma série de aspectos da perspectiva filosófica e
política do pensador alemão.
A história do século XX mostra que a
conquista do poder, nas revoluções, não resolve o problema de como
exercê-lo. Nenhuma revolução, até agora, enfrentou seriamente a questão das
garantias contra os abusos do poder. A teoria da ditadura do proletariado deu no
que deu. Bobbio, então, nos incita a refletir sobre a concepção do Estado em
Marx: uma concepção que precisa de desenvolvimentos, complementações e ─ também
─ correções, revisões.
Não temos o direito de nos esquivar ao exame das
questões relativas a como o poder se exerce. Os riscos de uma omissão, nas
condições atuais, seriam enormes. A humanidade está duplamente ameaçada de
extinção, diz Bobbio: pela guerra atômica e pelo esgotamento dos recursos do
planeta. Seríamos sumamente insensatos se não nos dispuséssemos a aprender um
pouco sobre as condições ─ não necessariamente mais humanas, porém menos ferozes
─ que podemos criar para o exercício do poder.
A tarefa é grave e
delicada. Cumpre enfrentá-la com prudência. Bobbio sabe disso e evita se
apresentar como “dono da verdade”. Seu método lembra o do velho Sócrates: ele
aparece diante de nós como um arguto perguntador. Não é casual que todos os
ensaios deste volume tenham títulos interrogativos. Qual Socialismo? ─ como
notou Celso Láfer ─ contém perguntas “incisivas e bem formuladas”, relativas a
temas para os quais Bobbio não pretende ter “respostas
definitivas”.
[Texto de orelha de Leandro Konder In BOBBIO, Noberto. Qual
socialismo?: debate sobre uma alternativa. Tradução de Iza de Salles Freaza. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1983.]
Leandro Konder é
filósofo marxista e escritor.
"Uma esquerda reformada não pode sair da tradição socialista, que, no atual período, significa concretamente opor a defesa dos direitos ao sucateamento dos direitos. Significa defender a globalização dos direitos sociais em conjunto com a globalização do capital. Defender a organização do consumo sustentável, combinada com a regulação social do mercado. Significa defender a solidariedade aos ex-países coloniais e a sua gente imigrada, opondo-se ao racismo e à xenofobia. Significa defender a estabilidade da democracia parlamentar e das instituições republicanas, combinadas com a participação direta e virtual da cidadania. Uma esquerda renovada defenderá políticas de desenvolvimento regional que partam da valorização da bases produtivas locais e da valorização das suas respectivas culturas. A esquerda renovada deve, enfim, repor no discurso político e nas ações de governo, a agenda do combate às desigualdades, tão cara à tradição socialista, social-democrata ou meramente republicano-democrática, que o neoliberalismo conseguiu arquivar."
(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")
(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")
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