Um design ecológico para a democracia
Leonardo Boff
*
A democracia é seguramente o ideal mais alto que a convivência
social historicamente elaborou. O princípio que subjaz à democracia é este: "o
que interessa a todos, deve poder ser pensado e decidido por todos".
Ela
tem muitas formas, a direta, como é vivida na Suíça, na qual a população toda
participa nas decisões via plebiscito.
A representativa, na qual as
sociedades mais complexas elegem delegados que, em nome de todos, discutem e
tomam decisões. A grande questão atual é que a democracia representativa se
mostra incapaz de recolher as forças vivas de uma sociedade complexa, com seus
movimentos sociais. Em sociedades de grande desigualdade social, como no Brasil,
a democracia representativa assume características de irrealidade, quando não de
farsa. A cada quatro ou cinco anos, os cidadãos têm a possibilidade de escolher
o seu "ditador" que, uma vez eleito, faz mais a política palaciana do que
estabelece uma relação orgânica com as forças sociais.
Há a democracia
participativa que significa um avanço face à representativa. Forças organizadas,
como os grandes sindicatos, os movimentos sociais por terra, teto, saúde,
educação, direitos humanos, ambientalistas e outros cresceram de tal maneira que
se constituíram como base da democracia participativa: o Estado obriga-se a
ouvir e a discutir com tais forças as decisões a tomar. Ela está se impondo por
todas as partes especialmente na América Latina.
Há ainda a democracia
comunitária que é singular dos povos originários da América Latina e pouco
conhecida e reconhecida pelos analistas. Ela nasce da estruturação comunitária
das culturas originárias, do norte até o sul de Abya Yala, nome indígena para a
América Latina. Ela busca realizar o "bem viver" que não é o nosso "viver
melhor" que implica que muitos vivam pior. O "bem viver" é a busca permanente do
equilíbrio mediante a participação de todos, equilíbrio entre homem e mulher,
entre ser humano e natureza, equilíbrio entre a produção e o consumo na
perspectiva de uma economia do suficiente e do decente e não da acumulação. O
"bem viver" implica uma superação do antropocentrismo: não é só uma harmonia
entre os humanos mas com as energias da Terra, do Sol, das montanhas, das águas,
das florestas e com Deus. Trata-se de uma democracia sociocósmica, onde todos os
elementos são considerados portadores de vida e por isso incluídos na comunidade
e com seus direitos respeitados..
Por fim estamos caminhando rumo a uma
superdemocracia planetária. Alguns analistas como Jacques Attalli (Uma breve
historia do futuro, 2008) imaginam que ela será a alternativa salvadora em face
a um superconflito que poderá, deixado em livre curso, destruir a humanidade.
Esta superdemocracia resultará de uma consciência planetária coletiva que se dá
conta da unicidade da família humana e de que o planeta Terra, pequeno, com
recursos escassos, superpovoado e ameaçado pelas mudanças climáticas obrigará os
povos a estabelecer estratégias e políticas globais para garantir a vida de
todos e as condições ecológicas da Terra.
Esta superdemocracia planetária
não anula as várias tradições democráticas, fazendo-as complementares. Isso se
alcança melhor mediante o biorregionalismo. Trata-se de um novo design
ecológico, quer dizer, outra forma de organizar a relação com a natureza, a
partir dos ecossistemas regionais. Ao contrário da globalização uniformizadora,
ele valoriza as diferenças e respeita as singularidades das biorregiões, com sua
cultura local, tornando mais fácil o respeito aos ciclos da natureza e a
harmonia com a mãe Terra.
Temos que rezar para que este tipo de
democracia triunfe senão ignoramos totalmente para onde seremos
levados.
* Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor. Autor do
livro Ecologia, Mundialização e Espiritualidade, Record 2008.
"Uma esquerda reformada não pode sair da tradição socialista, que, no atual período, significa concretamente opor a defesa dos direitos ao sucateamento dos direitos. Significa defender a globalização dos direitos sociais em conjunto com a globalização do capital. Defender a organização do consumo sustentável, combinada com a regulação social do mercado. Significa defender a solidariedade aos ex-países coloniais e a sua gente imigrada, opondo-se ao racismo e à xenofobia. Significa defender a estabilidade da democracia parlamentar e das instituições republicanas, combinadas com a participação direta e virtual da cidadania. Uma esquerda renovada defenderá políticas de desenvolvimento regional que partam da valorização da bases produtivas locais e da valorização das suas respectivas culturas. A esquerda renovada deve, enfim, repor no discurso político e nas ações de governo, a agenda do combate às desigualdades, tão cara à tradição socialista, social-democrata ou meramente republicano-democrática, que o neoliberalismo conseguiu arquivar."
(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")
(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")
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