"A liberdade apenas para os partidários do governo, só para os membros
de um partido - por numerosos que sejam - não é a liberdade. A liberdade é
sempre, pelo menos, a liberdade do que pensa de outra forma (...). Sem eleições
gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de
opinião livre, a vida acaba em todas as instituições públicas, vegeta e a
burocracia se torna o único elemento ativo. [...] Se estabelece assim uma
ditadura, mas não a ditadura do proletariado: a ditadura de um punhado de chefes
políticos, isto é uma ditadura no sentido burguês". (Rosa Luxemburgo; em "A
Revolução Russa")
Em 1918, a revolucionária marxista Rosa
Luxemburgo escreveu o texto "A Revolução Russa", onde criticava os desvios autoritários
que o bolchevismo promovia e alertava para suas consequencias. Resgatando o
melhor do pensamento marxista, Rosa Luxemburgo deixou claro que ditadura do
proletariado não é ausencia de democracia, mas sim a forma de imprementa-la em
beneficio da classe trabalhadora, impedindo uma contra-revolução burguesa.
Segundo o cientista social Michael Löwy, um dos mais importantes teóricos do
marxismo na atualidade: "Constatando a impossibilidade, nas
circunstâncias dramáticas da guerra civil e da intervenção estrangeira, de criar
"como que por magia, a mais bela das democracias", Rosa não deixa de chamar a
atenção para o perigo de um certo deslizamento autoritário e reafirma alguns
princípios fundamentais da democracia revolucionária. É difícil não reconhecer o
alcance profético desta advertência. Alguns anos mais tarde a burocracia
apropriou-se da totalidade do poder, excluiu progressivamente os revolucionários
de Outubro de 1917 - antes de, no correr dos anos 30, eliminá-los sem piedade."
( Michael Löwy; em "Rosa Luxemburgo: um comunismo para o século XXI")
Socialismo não é ditadura de partido único, não é
totalitarismo, muito menos terrorismo de Estado. Como disse o filósofo marxista
italiano Pietro Ingrao: "Lenin afirmava a construção violenta do Estado
e do poder político, e não se tratava só de uma resposta revolucionária ao
sangue do capitalismo. Era uma idéia errada, erradíssima, de abuso e de
esmagamento, que também atingiria, cedo ou tarde, uma parte do movimento
operário."(Pietro Ingrao; Em depoimento dado a Antonio Galdo, intitulado "Il
compagno disarmato" [Milão, 2004])
Está certo o filósofo
marxista Ruy Fausto, ao afirmar que: "Não que eu suponha uma simples
continuidade entre bolchevismo e stalinismo. Mas afirmo sim que o totalitarismo
stalinista é impensável sem o bolchevismo, e que há linhas reais de continuidade
entre os dois". (EM TORNO DA PRÉ-HISTÓRIA INTELECTUAL DO TOTALITARISMO
IGUALITARISTA)
Os bolcheviques estabeleceram a ditadura do
partido comunista, um regime pré-totalitario que usando do terror plantou as sementes que originaram o stalinismo, que promoveu um terror ainda
pior, desumano, assemelhando-se ao nazi-fascismo. A esquerda não pode continuar se
fundamentando nessa tradição.
E mais, é preciso ter consciência
das mudanças ocorridas desde aquela época, basta observar o fato dos
trabalhadores terem conquistado cidadania plena, através da legalização dos
partidos operários e dos sindicatos, da conquista do pleno direito de greve, da
jornada de trabalho de 8 horas diárias, de férias remuneradas de trinta dias, do
seguro desemprego, e condições de trabalho humanitarias, além da conquista do
voto secreto e universal. Até mesmo as mulheres conquistaram cidadania, não
somente através da conquista do direito de voto, mas também com a conquista da
participação cada vez maior no mercado de trabalho, mais licença maternidade,
legalização do divórcio, etc. Portanto é loucura ainda hoje falar em ditadura do
proletariado, uma vez que o capitalismo se democratizou em virtude dessas
conquistas que os trabalhadores, tanto homens como mulheres, obtiveram em
virtude de sua organização e luta. A democracia é um valor universal, e a
refundação do socialismo passa pelo reconhecimento dessa questão.
O
historiador Jacob Gorender, afirmou praticamente o mesmo, em entrevista
publicada na Teoria e Debate nº43: "o conceito de ditadura se presta a
tantas confusões, que não vale a pena insistir nele".O cientista político
Carlos Nelson Coutinho, um dos mais importantes intelectuais marxistas de nosso
país, afirmou que "ditadura do proletariado foi um dos termos menos
felizes de Marx", o que concordo plenamente. A democracia é um valor
universal, a esquerda socialista precisa se conscientizar e assumir essa
verdade.
"O melhor terreno para mudanças consistentes é o terreno
da democracia. Em condições autoritárias, o objetivo fundamental da mudança
passa a ser a própria democracia. Outras demandas, a luta pela igualdade social,
por exemplo, ficam obscurecidas, subordinadas. Conquistada a democracia,
trata-se de aprofunda-la, basicamente, em dois planos: no plano institucional,
de aperfeiçoamento do jogo democrático, e no plano da conquista da igualdade, do
progressivo desenvolvimento social em todos os níveis. A democracia é um valor
estratégico, universal, meio e fim." (José Genoíno, deputado federal do
PT/SP)
O socialismo precisa ser refundado, tendo por base a
defesa da democracia como valor universal. A história nos mostrou que igualdade
sem democracia é uma miragem. Sempre que a liberdade é sacrificada, privilégios
velhos e novos ganham força. A igualdade é irmã gemêa da liberdade.
Homens como Alexander Dubcek, Salvador Allende, Enrico Berlinguer, Chico
Mendes, e tantos outros, enriqueceram o campo da esquerda ao defender o
socialismo com liberdade e democracia.
A refundação do socialismo exige o
abandono de toda herança oriunda da tradição bolchevique, assim como a revisão
do próprio pensamento marxista. A esquerda não pode ser dogmatica, até porque a
história mostrou a existência de inúmeros equívocos no próprio
pensamento de Marx e de Engels, como demonstra o historiador Jacob
Gorender em "Marxismo sem utopia".
"Marx era um determinista
utópico. Queria algo que a realidade não confirmou. Previu que, com o avanço das
forças produtivas, a humanidade gozaria de fartura plena. A produtividade não
teria limites. Não é verdade. Apesar dos avanços tecnológicos, há o limite
ecológico para a produtividade. Não se pode crescer a ponto de deteriorar o
ambiente em que o homem vive. Isso Marx não pensou. Outra previsão equivocada
foi a do desaparecimento do Estado. Como não haveria mais classes sociais na
evolução marxista, então o Estado seria desnecessário. Haveria uma espécie de
autogoverno das comunidades. Impossível. As sociedades necessitam do Estado, até
porque há prioridades a definir. Que meios de transportes usar? Qual a produção
industrial? Serviços de saúde, educação, quem vai decidir sobre isso? Só pode
ser o Estado, democrático e de direito." (Jacob Gorender; em entrevista
publicada no jornal O Estado de São Paulo, edição de
19/02/2006)
Os socialistas defendem o fim do
capitalismo, o que significa a abolição da propriedade privada dos meios de
produção, distribuição e troca, com a estatização dessa propriedade em nome de
sua futura socialização, e a substituição do mercado por uma economia planificada.
Entretanto a fracassada experiência do chamado "socialismo real", assim como o
sucesso incontestável do "socialismo de mercado" na China e no Vietnã,
demonstram claramente que a esquerda precisa repensar essa questão. Não que os
socialistas devam renunciar a luta pelo fim do capitalismo e a favor da
construção de uma sociedade mais humana, justa e igualitária. Mas é evidente que
a propriedade privada e o mercado não podem ser abolidos, ao menos não da noite
para o dia. Será um processo longo, onde o socialismo irá conviver com o mercado
e com a propriedade privada por um bom tempo. É preciso seguir o exemplo bem
sucedido do "socialismo de mercado", tanto que até mesmo os cubanos, apesar de
faze-lo de forma extremamente timida, começam a promover reformas nesse sentido.
Na Venezuela, apesar de todo discurso socialista do presidente Hugo Chávez,
também não se pensa em estatizar toda propriedade dos meios de produção,
distribuição e troca, mas apenas aqueles setores que são considerados
estratégicos.
"O socialismo não pode, nem deve eliminar o mercado
de imediato. Precisará conviver com o mercado e tirar proveito dele durante um
tempo certamente longo. Só que, para ser compatível com o socialismo, precisará
ser um mercado regulado, direcionado pelo planejamento do Estado e refreado no
que se refere aos aspectos socialmente negativos." (Jacob Gorender; em Teoria e
Debate nº 16)
Até mesmo o historiador Eric Hobsbawn, um dos
maiores nomes do marxismo na Europa, reconhece a necessidade da existência do
mercado no socialismo.
"Sigo na esquerda, sem dúvida com mais
interesse em Marx do que em Lênin. Porque sejamos sinceros, o socialismo
soviético fracassou. (...) A crise global que começou no ano passado é, para a
economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989.
Por isso Marx segue me interessando. Como o capitalismo segue existindo, a
análise marxista ainda é uma boa ferramenta para analisá-lo. Ao mesmo tempo,
está claro que não só não é possível como não é desejável uma economia
socialista sem mercado nem uma economia em geral sem Estado." (Eric
Hobsbawn)
Como socialistas precisamos estar abertos aos novos
paradigmas que a história nos coloca, abrindo mão do dogmatismo que havia
transformado a filosofia marxista em uma espécie de religião. Precisamos ter
coragem para refundar o socialismo, tendo por base uma ética humanista e uma
profunda consciência democrática, pois sabemos que sem liberdade, não
pode existir socialismo.
"Uma esquerda reformada não pode sair da tradição socialista, que, no atual período, significa concretamente opor a defesa dos direitos ao sucateamento dos direitos. Significa defender a globalização dos direitos sociais em conjunto com a globalização do capital. Defender a organização do consumo sustentável, combinada com a regulação social do mercado. Significa defender a solidariedade aos ex-países coloniais e a sua gente imigrada, opondo-se ao racismo e à xenofobia. Significa defender a estabilidade da democracia parlamentar e das instituições republicanas, combinadas com a participação direta e virtual da cidadania. Uma esquerda renovada defenderá políticas de desenvolvimento regional que partam da valorização da bases produtivas locais e da valorização das suas respectivas culturas. A esquerda renovada deve, enfim, repor no discurso político e nas ações de governo, a agenda do combate às desigualdades, tão cara à tradição socialista, social-democrata ou meramente republicano-democrática, que o neoliberalismo conseguiu arquivar."
(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")
(Tarso Genro, "Explorando os limites de uma esquerda reformada")
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